Bambi, a história de uma vida na floresta | Primeiro capítulo


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Capítulo 1

Ele veio ao mundo no meio da mata, em uma daquelas clareiras pequenas e escondidas da floresta que aparentemente ficam abertas por todos os lados, mas que por todos os lados estão protegidas.

Também havia pouco espaço lá, suficiente apenas para ele e sua mãe.

Ali ele se ergueu, cambaleou alarmado sobre as pernas finas, fitou abobalhado com olhos turvos que nada viam, deixou a cabeça pender, tremia muito e ainda estava completamente aturdido.

— Que belo filhote! – gritou a pega.

Ela passara voando, atraída pelo gemido arfante que as dores arrancaram da mãe. Então, a pega se sentou em um galho próximo.

— Que belo filhote! – gritou ela agora. Não recebeu resposta e se pôs a tagarelar. — Que surpreendente que já consiga ficar em pé e andar! Que interessante! Nunca vi uma coisa dessas na vida. Bem, claro, eu ainda sou jovem, saí há um ano do ninho, como a senhora talvez saiba. Mas eu acho maravilhoso. Tão criança… vem ao mundo neste segundo e já consegue ficar em pé. Acho elegante. Realmente acho tudo em vocês, corças, muito elegante. E também já consegue correr…?

— Com certeza – respondeu a mãe, baixinho. — Mas a senhora vai me desculpar, não estou em condições de conversar. Tenho tanto a fazer agora… e, além do mais, ainda estou me sentindo um pouco fraca.

— Não se deixe prender por mim – disse a pega —, também não tenho muito tempo. Mas é que não se vê algo assim todo dia. Eu lhe digo, como essas coisas são desajeitadas e difíceis para nós. Não se pode tocar nos filhotes quando saem do ovo, ficam lá no ninho, desprotegidos, e precisam de alguém que cuide deles, alguém que cuide, estou lhe dizendo, disso a senhora certamente não fazia ideia. Que trabalho dá alimentá-los, que medo dá vigiá-los. Peço que a senhora pense em como é exaustivo precisar buscar comida para os filhotes e ao mesmo tempo cuidar para que nada aconteça com eles. Não conseguem fazer nada quando não há ninguém por perto. Eu não tenho razão? E quanto tempo é preciso esperar até que possam se mexer, quanto tempo leva até que tenham penas e fiquem com uma aparência decente?

— Perdão – retrucou a mãe —, eu não estava ouvindo.

A pega saiu voando dali. Que idiota, pensou ela, elegante, mas idiota!

A mãe mal percebeu e se pôs a banhar com zelo o recém-nascido. Ela o lavava com a língua, e esse ato reunia tudo: higiene corporal, massagem quentinha e carinhos amorosos.

O pequeno cambaleava um pouco. Entre carinhos e lambidas que o tocavam com suavidade aqui e ali, ele se encolheu um pouco e ficou parado. Sua pelagem vermelha, que ainda estava um pouco desgrenhada, tinha finos salpicos brancos, e no rosto confuso de filhote ainda havia uma expressão profundamente sonolenta.

Ao redor cresciam avelaneiras, cornisos, abrunheiros e jovens sabugueiros. Altos bordos, faias e carvalhos formavam um teto verde sobre o bosque cerrado, e brotavam do solo firme e marrom-escuro samambaias, ervilhacas e sálvia. Bem embaixo aninhavam-se na terra as folhas de violeta, que já haviam florescido, e de morangos, que já haviam começado a florescer. A luz do sol matutino esgueirava-se pela folhagem densa como um fio diáfano dourado. A floresta inteira ecoava várias vozes, era cruzada por elas, bem como por uma agitação alegre. O papa-figo vibrava sem cessar, as pombas arrulhavam, as andorinhas piavam, os tentilhões batiam as asas, os abelharucos pipiavam. O que atravessava essa cantoria era o grito que os gaios soltavam, a provocação zombeteira das pegas, o rompante tom metálico do cacarejar estilhaçador dos faisões. Às vezes, o gritinho agudo de um pica-pau cruzava todos os cantos. O grasnado do falcão ressoava claro e penetrante sobre as copas das árvores, e o coro rouco dos corvos era ouvido o tempo todo.

O pequeno não entendia nenhum dos muitos cantos e gritos, nenhuma palavra daquelas conversas. Não ouvia nada delas. Também não percebia nenhum de todos os cheiros que a floresta exalava. Ouvia apenas o pequeno chiado que passava sobre seu saiote, enquanto era lavado, aquecido e beijado, e não sentia nenhum cheiro além do corpo próximo da mãe. Bem aconchegado nessa proximidade benfazeja, buscou faminto ao redor e encontrou a fonte da vida.

Enquanto bebia, a mãe continuou a acarinhar o pequeno.

— Bambi – sussurrou ela.

Naquele momento, ela ergueu a cabeça, deixando as orelhas agirem, e respirou fundo.

Então, beijou novamente seu filhote, calma e feliz.

— Bambi – repetiu ela —, meu pequeno Bambi.

 

Capítulo 2

No começo do verão, as árvores estavam paradas sob o céu azul, mantinham os braços estendidos e recebiam a força que emanava do Sol. Nas sebes e arbustos do bosque, as flores se abriam, estrelas brancas, vermelhas ou amarelas. Em muitas, os botões dos frutos já se faziam visíveis, inúmeros, pendiam das finas pontas dos galhos, macios, firmes e decididos, e pareciam pequenos punhos cerrados. Do chão vinham as estrelas coloridas de muitas e variegadas flores, e a terra brotava no fundo penumbroso da floresta em um colorido silencioso e fervilhante. Tudo tinha cheiro de folha fresca, de flores, de leiva úmida e madeira verde. Quando a manhã irrompia e quando o sol se punha, a floresta inteira ressoava com milhares de vozes, e de manhã à noite zumbiam abelhas, zuniam as vespas, a zoada retumbava pelo silêncio perfumado.

Assim foram os dias em que Bambi passou sua primeira infância.

Ele caminhava atrás de sua mãe em uma faixa estreita que corria no meio dos arbustos.

Como era agradável passear por ali. A folhagem densa acarinhava seu flanco com suavidade, curvando-se levemente para o lado. O caminho parecia bloqueado e obstruído dez vezes por todos os lados, ainda assim se avançava com a maior tranquilidade. Em todo canto havia essas vias, elas cortavam e cruzavam a floresta toda. A mãe conhecia todas elas, e quando Bambi às vezes era impedido por um arbusto como se fosse um muro verde intransponível, a mãe sempre encontrava, sem hesitar ou muito procurar, o local onde o caminho estava traçado.

Bambi perguntava. Ele amava fazer perguntas à mãe. Para ele, a coisa mais legal era perguntar e então ouvir a resposta que a mãe lhe dava. Bambi não se surpreendia por lhe ocorrerem tantas perguntas, uma atrás da outra, o tempo todo e sem descanso. Ele achava perfeitamente natural; ele se deliciava demais. Deliciava-o também esperar com curiosidade até a pergunta chegar. Se ela chegasse como queria, ele sempre ficava satisfeito com ela. Às vezes, claro, ele não a entendia, mas também era legal, porque podia sempre podia continuar perguntando, quando quisesse. Às vezes, não continuava com as perguntas, e também era legal, porque se punha a imaginar do seu jeito aquilo o que não entendia. Às vezes, ele sentia muito claramente que sua mãe não lhe oferecia uma resposta completa, não lhe dizia tudo o que sabia de propósito. E isso era muito legal. Pois assim uma curiosidade muito especial permanecia dentro dele, uma ideia que lampejava nele de forma misteriosa e estimulante, uma espera na qual ele ficava ansioso e entusiasmado, tanto que se calava.

Então, ele perguntou:

— De quem é esse caminho, mãe?

A mãe respondeu:

— Nosso.

Bambi perguntou de novo:

— Meu e seu?

— Isso!

— Nosso?

— Isso!

— Só nosso?

— Não – respondeu a mãe. — Nosso, das corças…

— O que é isso, corça? – perguntou Bambi e riu.

A mãe olhou ao redor para encontrá-lo e também riu:

— Você é uma corça, e eu sou uma corça. Somos corças. Entende?

Bambi deu um pulo alto, rindo.

— Sim, entendo. Eu sou um corço pequeno e você é uma corça grande. Não é?

A mãe meneou a cabeça para ele.

— Isso mesmo.

Bambi voltou a ficar sério:

— Existem outras corças além de mim e de você?

— Claro – disse a mãe. — Muitas.

— Onde elas ficam? – perguntou Bambi em voz alta.

— Aqui, em todo lugar.

— Mas… eu não vejo.

— Logo vai ver.

— Quando? – Bambi estacou por pura curiosidade.

— Logo. – A mãe continuou andando, tranquila.

Bambi seguiu-a. Ele se calou, pois estava ruminando o que isso poderia significar: “Logo”. Ele chegou à conclusão de que “logo” com certeza não era “já”. Mas ele não conseguia decidir em que momento esse “logo” terminava para ser “logo” e começava a virar “lento”. De repente, ele perguntou:

— Quem fez esse caminho?

— Nós – respondeu a mãe.

Bambi se surpreendeu:

— Nós? Você e eu?

A mãe disse:

— Bem, nós… as corças.

Bambi perguntou:

— Quais?

— Nós todas – disse a mãe.

Eles continuaram. Bambi estava satisfeito e teve vontade de pular fora do caminho, mas ele se manteve obediente ao lado da mãe. Diante deles, veio um farfalhar bem perto do chão. Com um movimento brusco, algo saiu de lá e se escondeu entre os galhos de samambaia e as folhas de alface-selvagem. Uma vozinha fina guinchou, lastimável, então tudo ficou em silêncio. Apenas as folhas e os talos de mato tremelicavam no lugar. Um furão havia caçado um camundongo. Nesse momento, ele passou às pressas, desviou para o lado e começou sua refeição.

— O que foi aquilo? – perguntou Bambi, agitado.

— Nada – tranquilizou a mãe.

— Mas… – tremeu Bambi —, mas… eu vi.

— Muito bem – disse a mãe —, não se assuste. O furão matou o camundongo.

Mas Bambi ficou terrivelmente assustado. Um terror grande e desconhecido envolveu seu coração. Demorou muito até que ele pudesse falar de novo. Então, ele perguntou:

— Por que ele matou o camundongo?

— Porque… – A mãe hesitou. — … vamos mais rápido – disse ela, como se lhe tivesse ocorrido alguma coisa, e ela tivesse esquecido a pergunta. Ela começou a trotar. Bambi saiu aos pulos atrás dela.

Passou-se muito tempo; eles voltaram a andar tranquilamente. Por fim, Bambi perguntou, apreensivo:

— Vamos ter que matar um camundongo?

— Não – respondeu a mãe.

— Nunca? – perguntou Bambi.

— Nunca – foi a resposta.

— Por que não? – questionou Bambi, aliviado.

— Porque nós não matamos ninguém – disse simplesmente a mãe.

Bambi voltou a ficar empolgado.

De um jovem freixo que ficava próximo ao caminho, saiu um guincho alto. A mãe continuou sua caminhada sem dar atenção. Porém, Bambi estacou, todo curioso. Dois gaios enfrentavam-se lá em cima nos galhos por um ninho que haviam saqueado.

— Trate de dar o fora, seu malandro! – gritou um deles.

— Não fique nervosinho, seu maluco – retrucou o outro —, não tenho medo de você.

O primeiro vociferou.

— Procure outro ninho, seu ladrão! Eu esmago sua cabeça. – Ele estava fora de si. — Que maldade! – ralhou ele. — Que maldade!

O outro percebeu Bambi, sacudiu alguns galhos para baixo e chiou para ele:

— O que está olhando aqui, seu pirralho! Desapareça!

Intimidado, Bambi saiu aos pulos dali, alcançou a mãe, caminhou de novo atrás dela, obediente e apavorado, e achou que ela não havia notado que o deixara para trás.

Depois de um tempo, ele perguntou:

— Mãe… o que é isso, maldade?

A mãe respondeu:

— Não sei.

Bambi refletiu. Então, voltou a falar:

— Mãe, por que aqueles dois estavam tão bravos um com o outro?

A mãe respondeu:

— Estavam brigando por comida.

Bambi voltou a perguntar:

— Nós também vamos brigar por comida um dia?

— Não – afirmou a mãe.

Bambi questionou:

— Por que não?

E a mãe lhe disse:

— Há o suficiente para nós todos.

Bambi quis saber mais uma coisa:

— Mãe…?

— O que foi?

— Nós vamos ficar bravos um com o outro?

— Não, meu filho – respondeu a mãe —, isso não existe entre a gente.

Eles continuaram. Lá adiante, ficou totalmente claro de uma vez, uma claridade radiante. O emaranhado verde de galhos e arbustos havia terminado, o caminho havia terminado. Apenas alguns passos e eles sairiam para a liberdade iluminada que se abria diante deles. Bambi quis saltar à frente, mas a mãe parou.

— O que foi? – gritou ele impaciente e já totalmente fascinado.

— A campina – disse a mãe.

— O que é isso, a campina? – quis saber Bambi.

A mãe interrompeu-o.

— Você já vai ver. – Ela ficou séria e atenta. Sem se mover, manteve a cabeça alta, espreitando, tensa, testou o vento respirando profundamente e parecia muito austera.

— Está bem – disse ela por fim —, podemos sair.

O pequeno corço deu um salto, mas ela bloqueou seu caminho.

— Espere até eu chamá-lo.

Nesse momento, Bambi estacou, obediente.

— Isso mesmo – elogiou a mãe. — Agora, preste atenção no que vou dizer.

Bambi ouviu a agitação na voz da mãe e ficou muito tenso.

— Não é tão simples caminhar pela campina – continuou a mãe —, é uma coisa difícil e perigosa. Não me pergunte por quê. Você vai aprender com o tempo. Por ora, faça exatamente o que eu disser. Está bem?

— Sim – prometeu Bambi.

— Muito bem. Eu saio primeiro, sozinha. Fique aqui e espere. E fique me olhando sempre. Não tire os olhos de mim nunca. Se você vir que estou correndo de volta para cá, dê meia-volta e corra o mais rápido que puder. Eu alcanço você. – Ela se calou, pareceu refletir, e continuou com insistência: — Corra, corra o máximo que puder. Corra, de qualquer maneira… mesmo se acontecer alguma coisa… mesmo se me vir… se me vir indo ao chão… não preste atenção em mim, entendeu?… Seja lá o que veja ou ouça… continue, sem parar e o mais rápido possível…! Você promete que fará isso?

— Prometo – disse Bambi, baixinho.

— Mas se eu chamá-lo – falou a mãe —, você poderá ir. Lá fora, na campina, vai poder brincar. É bonito lá fora e você vai gostar. Só que… você precisa me prometer… que no primeiro grito meu você ficará ao meu lado. E pronto! Você me ouviu?

— Sim – respondeu Bambi, mais baixo ainda. A mãe falava com muita seriedade.

E continuou a falar:

— Lá fora… se eu gritar… nada de olhar ao redor, nada de perguntas, só venha atrás de mim como o vento! Preste atenção. Sem pensar, sem hesitar… imediatamente, quando eu começar a correr, significa que você deve fugir logo e não ficar parado até estarmos de novo lá dentro. Não vai se esquecer disso?

— Não – afirmou Bambi, apreensivo.

— Então, agora eu vou – avisou a mãe, parecendo um pouco mais calma.

Ela saiu. Bambi, que não tirava os olhos dela, viu como ela avançava devagar com passos altos. Cheio de expectativa, cheio de ansiedade e curiosidade, ele ficou ali, parado. Viu como a mãe espreitava ao redor, viu-a se encolher e ele mesmo se encolheu, pronto para sair aos saltos de volta à mata fechada. Então, a mãe se acalmou de novo, e quando um minuto se passou, ela ficou feliz. Ela abaixou o pescoço, estendeu-o, olhou adiante satisfeita e gritou:

— Pode vir!

Bambi saiu em disparada. Uma alegria gigantesca tomou-o com uma força tão fascinante que esqueceu de imediato seu temor. Na mata fechada ele vira apenas a copa verde das árvores sobre si e, além disso, somente às vezes, em pequenos vislumbres, salpicos azuis espalhados. Agora ele via o céu azul inteiro, alto e amplo, e aquilo o alegrou sem que ele soubesse o motivo. Do sol, ele conhecera na floresta apenas raios largos e intermitentes ou a suave chuva de luz que se refletia dourada entre os galhos. De repente, estava parado sob a força quente e ofuscante, cujo domínio absoluto o banhava, estava parado no meio do calor abençoado que lhe fazia fechar os olhos e abrir o coração. Bambi estava inebriado, totalmente fora de si, simplesmente encantado. Com desajeito, saltou alto três, quatro, cinco vezes ali mesmo onde estava. Não conseguia evitar, precisava saltar.

Sentiu desejo de pular bem alto. Suas pernas jovens estenderam-se com tamanha força, sua respiração era tão profunda e fácil, e ele bebia a respiração, bebia todo o cheiro da campina com uma empolgação tão impetuosa que precisava mesmo saltar. Bambi era um filhote. Se fosse uma criança humana, teria gritado de alegria. Mas era um filho de corça, e corças não gritam, ao menos não como as crianças humanas fazem. Então, ele gritou de alegria do seu jeito. Com as pernas, com o corpo todo, que girava no ar. Sua mãe ficou por perto e se alegrou. Viu que Bambi estava encantado. Viu que ele se lançava no ar, caía desajeitado no mesmo lugar, olhava perplexo e inebriado e, no momento seguinte, se lançava de novo no ar, várias e várias vezes. Ela compreendeu que Bambi conhecia apenas os estreitos caminhos das corças da floresta, se acostumara, nos poucos dias de sua existência, apenas ao confinamento da mata fechada e que, por isso, não saía do lugar, pois não entendia como correr livremente pela campina aberta. Ela se abaixou sobre as patas dianteiras estendidas, riu de Bambi por um segundo, deu um salto e correu em círculos de forma que os talos altos de mato farfalharam. Bambi assustou-se e permaneceu imóvel. Era um sinal de que devia voltar à mata fechada? Não se preocupe comigo, dissera a mãe, nem com o que vir e ouvir; apenas siga em frente, o mais rápido possível! Ele quis dar meia-volta e fugir, como lhe fora ordenado. Então, a mãe de repente chegou a galope em meio a um chiado maravilhoso, parou a dois passos dele, inclinou-se rindo e gritou:

— Venha comigo!

E, num repente, ela desapareceu. Bambi ficou embasbacado. O que era aquilo? Era mesmo sua mãe? E então ela voltou, tão rápida que o deixou zonzo, empurrou-o no flanco com o nariz e disse, apressada:

— Venha me pegar! – E fugiu de novo. Bambi partiu atrás dela. Alguns passos. Mas logo os passos se transformaram em saltinhos. Parecia que estava voando, avançando sem esforço. Havia um espaço a cada passo, espaço a cada pulo, espaço, espaço. Bambi ficou feliz além da conta. O mato farfalhava em suas orelhas, e era lindo, tão macio, suave como seda quando passava por ele. Ele corria em círculos, lançava-se para lá e para cá e descrevia mais um círculo, voltava a se lançar e continuava a correr. A mãe parou um pouco, tomou fôlego e se virou para o lado em que Bambi saltitava. Ele estava a toda velocidade.

De repente, a corrida terminou. Ele parou, foi até a mãe com passinhos elegantes e olhou para ela com alegria. Então, caminharam lado a lado, cheios de contentamento. Desde que havia saído para a campina, Bambi vira o céu, o sol e a vastidão verde apenas com o corpo, o céu apenas com o olhar ofuscado e inebriado, o sol com as costas banhadas de forma benfazeja e com a respiração cada vez mais forte. Agora desfrutava com os olhos, arrebatado pelas novas maravilhas a cada passo, o esplendor da campina. Não havia nenhum pedacinho de chão visível, como lá dentro, na floresta. Os talos cobriam cada palmo de chão, tocando-se e balançando na mais pura resplandescência, curvando-se suavemente para o lado a cada passo e se erguendo em seguida como se nada houvesse passado. O campo verde era estrelado com margaridas brancas, com gordos botões violetas e vermelhos dos trevos em flor e com as flores pomposas de um dourado brilhante que o dente-de-leão elevava.

— Olha só, mãe – gritou Bambi —, uma flor está voando ali.

— Não é uma flor – disse a mãe —, é uma borboleta.

Bambi olhou embevecido a borboleta que se soltou com infinita delicadeza de um talo e pairou em voo vacilante. Então, Bambi viu que muitas daquelas tais borboletas voavam sobre a campina, aparentemente apressadas e, ainda assim, lentas, tremelicando para cima e para baixo, uma brincadeira que o entusiasmou. Pareciam realmente flores voadoras, flores engraçadas que não queriam ficar paradas em seu caule e tinham se afastado para dançar um pouquinho. Ou flores que pousavam com o pôr do sol, mas ainda não tinham um lugar e precisam buscar um, desciam e desapareciam, como se afundassem em algum lugar, mas logo voltavam a se erguer, ora apenas um pouco, ora mais alto para continuar sua busca, sem parar, pois os melhores lugares já estavam ocupados.

Bambi olhava para todas. Adoraria ver uma delas de perto, adoraria ficar frente a frente com uma delas, mas não conseguia. Elas pairavam sem parar de um lado para o outro. Ele ficou totalmente confuso.

Ele se deliciou quando olhou de novo para o chão, todas aquelas milhares de vidas ágeis que rastejavam embaixo dos cascos. Saltavam e brotavam para todos os lados, surgiam como um tumulto e uma confusão e voltavam a afundar no próximo segundo no solo verde de onde haviam subido.

— O que é isso, mãe? – perguntou.

— São os pequenos – respondeu a mãe.

— Olha só – gritou Bambi —, um pedacinho de mato está pulando aqui. Não… como pula alto!

— Não é mato – explicou a mãe —, é um bom gafanhoto.

— Por que ele pula assim?

— Porque chegamos aqui – comentou a mãe —, e ele tem medo.

— Ah! – Bambi voltou-se ao gafanhoto, que estava sentado sobre o disco branco de uma margarida. — Ah – disse Bambi suavemente. — O senhor não precisa ter medo, claro que não vamos fazer nada.

— Eu não tenho medo – retrucou o gafanhoto com voz trêmula. — Só me assustei em um primeiro momento, pois eu estava falando com a minha mulher.

— Desculpe – disse Bambi, dócil. — Nós perturbamos o senhor.

— Não tem problema – rascou o gafanhoto. — Como são vocês, não tem problema. Mas nunca se sabe quem vem, e é preciso estar atento.

— Essa é a primeira vez na minha vida que venho até a campina – explicou Bambi. — A mãe me…

O gafanhoto ergueu-se com a cabeça estendida de um jeito petulante, fez uma expressão séria e murmurou:

— Não quero saber. Não tenho tempo de bater papo com você, preciso procurar minha mulher. Pula! – E assim ele se foi.

— Pula – disse Bambi, perplexo, e observou maravilhado o pulo alto com que ele desapareceu.

Bambi correu até a mãe:

— Ei… eu falei com ele!

— Com quem? – perguntou a mãe.

— Ora, com o gafanhoto – explicou Bambi —, eu falei com ele. Ele foi tão gentil comigo. E eu gosto muito dele. Ele é tão verde, e na ponta ele é tão transparente como nenhuma folha pode ser, nem a mais fina.

— São as asas.

— É? – Bambi continuou. — E ele tem aquela cara séria, cheia de pensamentos. Mas, apesar disso, ele foi muito gentil comigo. E como consegue pular! Deve ser pesado de montão. Pula!, ele fala e pula tão alto que não dá mais para ver.

Ele continuou a falar. A conversa com o gafanhoto deixou Bambi agitado e um pouco cansado, pois era a primeira vez que ele falava com alguém estranho. Ele sentiu fome e se encostou em sua mãe para se alimentar.

Quando voltou a se acalmar e sonhou acordado por um tempinho, na pequena e doce embriaguez que o cercava todas as vezes que era amamentado pela mãe, observou na confusão dos talos do mato uma flor clara que se movimentava. Bambi olhou com mais atenção. Não, não era uma flor, era uma borboleta. Bambi aproximou-se com cuidado.

A borboleta pendia preguiçosa em um talo e movia devagar suas asas.

— Por favor, fique no lugar! – Bambi pediu para ela.

— Por que tenho que ficar no lugar? Sou uma borboleta – respondeu o bichinho, surpreso.

— Ah, fique apenas um pouquinho no lugar – pediu Bambi —, faz tempo que estou querendo ver a senhora de perto. Faça esse favorzinho.

— Que seja – disse a borboleta —, mas só um pouco.

Bambi parou diante dela.

— Como a senhora é bonita – vozeou ele, encantado —, que maravilhosa! Como uma flor!

— Quê? – A borboleta bateu as asas. — Como uma flor? Ora, em meus círculos todos falam que somos mais bonitas que as flores.

Bambi ficou perplexo.

— É mesmo – gaguejou —, muito mais bonita… me perdoe… eu só quis dizer…

— Para mim tanto faz o que você quis dizer – retrucou a borboleta. Ela curvou seu corpo estreito de um jeito afetado e brincou vaidosa com as antenas delicadas.

Bambi observou-a, encantado.

— Como a senhora é delicada – disse ele —, fina e delicada! E que magníficas essas asas brancas!

A borboleta estendeu bem as asas, em seguida as ergueu de um jeito que ficaram bem juntas, parecendo uma vela de barco estendida.

— Ah – gritou Bambi —, agora eu entendo por que a senhora é mais bonita que as flores. Além disso, a senhora pode voar, e as flores não podem. Porque elas crescem presas no caule, é por isso.

A borboleta ergueu-se.

— Chega – disse ela. — Eu posso voar! – Ela alçou voo tão levemente que mal era possível perceber e entender. Suas asas brancas moveram-se com suavidade, graciosas, então ela pairou no ar ensolarado. — Só fiquei parada tanto tempo por você – disse ela e balançou para cima e para baixo diante de Bambi —, mas agora eu vou embora.

Assim era a campina.

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