A Rainha do Ignoto | Primeiros capítulos


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I

A Funesta

Os habitantes das povoações ou aldeias dormem cedo, por isso, na Passagem das Pedras, a pouco mais das dez horas da noite, só se via brilhar uma luz cuja claridade saía da janela do oitão da casa do fim da rua. Tudo mais era treva e silêncio sob a imensidade do céu estrelado.

Do peitoril da mesma janela, debruçava-se um moço, chegado há pouco da cidade, a conversar com um rapazinho, que estava assentado à borda da calçada, e dizia-lhe:

— O sono se esqueceu de ti, Valentim.

— Sr. doutor não me conhece — respondeu o menino com vivacidade —, estou acostumado a tudo! Tenho viajado com meu pai por todo este mundão de meu Deus! Muitas vezes caminhamos com a lua até a meia-noite ou uma hora da madrugada.

— Tu que tens viajado muito — disse o moço gracejando —, diz-me o que é aquilo ali, na linha do horizonte, para o lado do nascente?

— Ali, Sr. Edmundo? — apontou Valentim. — É a serra das Antas.

— É fértil aquela serra? — tornou ele.

— Assim, assim — volveu o campônio —, fazem roçados nas quebradas e plantam alguma cana, mas coisa pouca.

— Aqui, deste outro lado, vejo outra serra muito alta — disse o Dr. Edmundo.

— Qual? Aquele serrote? Parece alto porque está mais perto — volveu o menino —, aquela é a Serra do Areré; mas é encantada, ninguém vai lá.

— Ninguém! Por quê? — disse Edmundo, com espanto.

— Porque, se for, não voltará mais; dizem que tem uma gruta onde mora uma moça encantada numa cobra, que à noite sai pelos arredores a fazer distúrbios.

— E acreditas nessas bruxarias, Valentim?

— Ora, se acredito; minha avó também não acreditava, assim como o senhor, mas agora está certa e mais que certa da verdade. Uma noite destas, viu, ela mesma, descer da serra e passar cantando pela estrada uma moça bonita, vestida de branco. E o senhor quer saber? Ia seguida pelo diabo, um moleque preto de olhos de fogo, com uma cauda comprida que arrastava no chão!

— Isto é sério, Valentim?

— Ora, se é! Ela trazia também um cachorro preto que dava ondas à claridade da lua! Minha avó quase morre de medo; chamou meu pai, e ele também viu. Conta a quem quiser ouvir; e todos sabem que meu pai não é homem de mentiras.

— Te fazia mais inteligente, Valentim! Não vês que isto é uma história de bruxa sem fundamento, inventada pela superstição do povo?

— Quem contou ao senhor doutor que é história de bruxa?! — disse o menino com exaltação. — Acredito, porque eu mesmo já vi. Em uma tarde dessas, ia eu com minha irmã Ritinha pastorear umas cabras, lá para as faldas do Areré... Não se ria, senhor doutor, olhe que eu vi, não estou mentindo... ela estava em pé sobre o monte, tinha um livro aberto na mão, mas não lia, olhava para o céu como aquela Nossa Senhora da Penha, que está pintada num quadro da igreja do Nosso Senhor do Bonfim.

— Quem estava de pé no monte? — perguntou Edmundo, rindo.

— A moça encantada — respondeu Valentim.

O Dr. Edmundo ficou pensativo. Muitas vezes tinha zombado da credulidade do povo, e não podia tomar a sério aquelas histórias incoerentes; mas procurava o fio da realidade perdido naquele labirinto de ideias extravagantes e fantásticas.

Averiguar o fato seria uma distração para a monotonia de seus dias, para o aborrecimento de sua vida cansada das brilhantes misérias das grandes cidades; por isso fingiu acreditar nas ingênuas palavras do camponês e disse-lhe:

— Pois bem, Valentim, se ficar aqui mais alguns dias irei contigo à gruta para ver a moça encantada. Se for bonita, caso-me com ela.

— Não graceje, senhor doutor... Ela tem pacto com Satanás! Dizem que, onde aparece, é desgraça certa. Chamam-na “A Funesta”. Deus me livre de encontrá-la. Boa noite, já é tarde, e a vovó zanga-se quando me demoro. Sai sempre de madrugada? A que horas quer os cavalos?

— Às quatro, não falte.

— Não, senhor — disse Valentim, e desapareceu correndo pela encosta.

O Jaguaribe corria em frente da janela, onde o Dr. Edmundo ficou ainda a cismar; mas sua vista errante parou sobre a lua erguendo-se no firmamento azul, como uma hóstia de ouro.

A solidão era completa, o silêncio era profundo!

Nem o vento movia os ramos das árvores. Elas se levantavam do meio da sombra projetada pela copa, como espectros cismadores.

De repente, soou ao longe uma voz doce e triste entoando uma canção francesa, e era tão saudosa, tão cheia de melancolia que as próprias pedras da margem pareciam comover-se, escutando:

 

Te souvient tu Marie

De notre enfance au champs

Notre jouet a la prairie,

J’avais alors quinze ans.

 

A voz era de mulher e vinha se aproximando. Já se distinguia o som de uma harpa com que ela se acompanhava.

Deslizando mansamente pelo rio, vinha de longe um pequeno bote; era dele que partia o som melancólico da harpa e as estrofes saudosas da canção, que prosseguia assim:

 

Te souvient tu même

De nos transports brülants,

Quand je te dis: t’aime...

J’avais alors quinze ans.

 

Le bruit de cette fête

Retour dans mon coeur

Le temps que je regrets

C’est le temps de bonheur.

 

Au présent je soupire...

Mes yeux sont baissés,

Ils ont craint de me dire

Mes beaux jours sont passés.

 

Ma bouche em vain répète

De regrets superflus!

Les temps que je regret

C’est le temps que n’est plus.

Quando a pequena embarcação passou por defronte da janela, Edmundo pôde contemplar à vontade a formosa bateleira. Ela vestia branco, tinha os cabelos soltos e a cabeça cingida por uma grinalda de rosas.

De pé no meio do bote, encostava a harpa ao peito e tocava com maestria divina! O luar dava-lhe em cheio nas faces esmaecidas pelo sereno da madrugada, e os olhos extremamente belos estavam amortecidos por uma expressão magoada de tristeza indefinível. Algumas gotas de pranto umedeciam-lhe as pálpebras e tremulavam ainda nas negras pestanas.

Vinha, ali também assentado no banco da proa, sustentando o remo e movendo-o com perícia, uma figura negra e peluda, feia de meter medo.

E, para mais confirmar a sua parecença com o rei das trevas, o tal moleque tinha uma cauda que, achando pouca acomodação no banco, se tinha estendido pela borda do bote, e parecia brincar na superfície das águas.

De espaço em espaço, a enorme cabeça de um cão cor de azeviche aparecia e tornava a ocultar-se aos pés da cantora.

O bote passou defronte da janela; a voz foi se perdendo ao longo do rio, até sumir-se.

O silêncio restabeleceu-se.

O Dr. Edmundo era que não saía do pasmo em que o tinha deixado aquela estranha aparição! Julgava-se alucinado! Duvidava do testemunho de seus próprios olhos, e para certificar-se de que não sonhava, beliscou com força as mãos e sentiu-se acordado.

Fechou a janela e foi deitar-se; mas não podia dormir; a sedutora imagem o perseguia com aferro.

O Dr. Edmundo havia viajado muito, estivera em Paris, onde gastou quase uma fortuna; mas nunca fora tão singularmente impressionado.

Quem seria aquela mulher?, pensava ele. Donde vinha? Para onde ia? Seria o anjo da saudade, perdido nas solidões da noite? As melancólicas notas daquele canto traduziriam o poema de um amor infinito sepultado nas cinzas do coração?

Por que capricho aquela criatura formosa, romântica e ideal misturava o belo com o horrível? Por que se acompanhava com figuras tão irrisórias? Mistério!

Ele concordou logo que Valentim tinha um pouco de razão, pois estava fora de dúvida que, por aquelas paragens, existia a verdadeira causa que dava origem à crença do povo; mas em que sítio morava essa rica senhora, que se comprazia em mistificar os simples habitantes daquela povoação com seus caprichos romanescos?

O Dr. Edmundo voltava-se no leito, frenético de impaciência, porque não podia achar uma explicação razoável para o que acabava de ver. Querendo imaginar que a moça fosse uma harpista e cantora de esquina que por ali aparecesse, rejeitou a ideia, porque lhe pareceu inadmissível que uma dessas infelizes pudesse se trajar com tanto luxo; pois tinha visto bem, ao clarão da lua, brilhar no dedo da mão que ela passava nas cordas da harpa um lindo anel de brilhantes.

Fugindo com a ideia para o campo das recordações, o moço pensou em Veneza, nas gôndolas, nas serenatas ao luar. Depois figurou-se na Alemanha, viu seus castelos feudais: uns pendurados às verdes encostas das margens do Reno, outros no gosto da arquitetura normando-gótica, que floresceu no século XII, e levando às nuvens suas torres orgulhosas. Passavam-lhe na vista as belas muralhas, as pontes levadiças, os fossos, as ameias, os mirantes, as arcadas, os jardins cercados de rochas e as fontes murmurantes! Ainda lhe apareceu à mente o rosto formoso de uma fada, e lhe embalaram os ouvidos as notas saudosas do canto melancólico com que dizem que ela seduz os viajantes nas margens daquele rio. Assim, adormeceu enlevado.

 

 

II

A fada seduziu o viajante

Já os galos amiudavam o canto, e as nuvens do alvorecer do dia se espalhavam no céu, deixando ver uma tênue claridade.

O Dr. Edmundo, adormecido há pouco tempo, sonhava ainda com a cantora do bote, a náiade do Jaguaribe, quando duas fortes pancadas na porta do quarto o fizeram despertar, sobressaltado:

— Quem bate? O que quer? — perguntou enfadado.

— O dia já vem rompendo, senhor doutor — disse o criado. — Valentim já está aí com os cavalos.

— Vai-te daí! Deixa-me dormir, não me aborreças!

— Acorde, senhor doutor, são horas.

— Horas de quê, marmanjo?

— De partirmos, senhor.

— Para onde?

— Valha-me Deus — dizia o pachorrento criado, continuando a bater devagarinho. — Já é muito tarde; o Valentim não quer mais esperar.

— Diz-lhe que vá embora.

Adriano, assim se chamava o criado, estranhou a contraordem, mas obedeceu, e esperou que o amo se levantasse das oito para as nove horas do dia. Enquanto passava o tempo, foi Adriano sentar-se ao batente do portão e observar os costumes matinais daquela aldeia.

Alguns camponeses passavam de enxada ao ombro seguindo para seus rústicos trabalhos. Uma mulher vinha entrando na povoação trazendo à cabeça uma grande cuia de beijus de goma, alvos como jasmins; um pescador vinha mais atrás trazendo a tiracolo um uru de peixes, outros os levavam em cambadas presas a um pau que traziam ao ombro, e assim os ofereciam pelas portas.

Valentim, apesar da hora adiantada do dia, esperava ainda à porta, tendo um cavalo selado preso à mão pelas cambas do freio, e outros pelos cabrestos.

Edmundo, tendo-se levantado, chegou à janela para lançar uma vista aos lugares da visão da noite, e vendo ainda o paciente rapaz a esperar pela última decisão, disse-lhe:

— Leva, Valentim, diz a teu pai que trate da minha cavalgadura. Não pretendo sair já, quando decidir-me, te avisarei.

O menino afastou-se com os três cavalos, e Edmundo foi entender-se com o criado:

— É preciso, Adriano, procurar-me uma cozinheira e arranjar-me alguns móveis mais indispensáveis.

Adriano saiu em busca do necessário, pasmo de admiração daquela resolução repentina do amo.

O doutor Edmundo teria vinte e quatro a vinte e cinco anos. Seu pai fora um rico negociante da Fortaleza; foi nessa bela cidade do Norte que ele passou os seus primeiros anos, onde fez os preparatórios e donde mandaram-no para a Academia de Direito do Recife. Ali fez ele sempre um dos mais brilhantes papéis, apesar de não ser gênio nem um talento de primeira plana. Mas, bem-apessoado e único herdeiro de uma boa fortuna, era o eldorado das moças, e até dos próprios pais.

Não havia baile, jantar, batizado ou casamento para o qual não tivesse um convite formal, além de receber muitos recadinhos particulares e íntimos.

Nessas ocasiões, apresentava-se sempre com um figurino da última moda. Além disso, tocava flauta, cantava árias e duetos, recitava ao piano versos próprios ou dos poetas de maior nomeada; contava anedotas, dançava admiravelmente e ninguém o vencia no galanteio!

Em matéria de amor, não admitia a verdade, zombava de meia dúzia de corações, verdadeiros tesouros de sentimento, onde tinha feito despertar o mais sincero e puro afeto, e depois ia escrever folhetins nos rodapés dos jornais dos estudantes, contra a inconstância e leviandade das mulheres, rindo-se ao mesmo tempo com os amigos de ter feito no mesmo jornal, com diversos pseudônimos, quatro ou cinco sonetos: a Marília, Laura, Beatriz, Leonor e Julieta.

Mas isso não privava que o acadêmico gozasse da maior consideração dos pais e da simpatia das filhas... Era tão afável... tão elegante e delicado... Quem poderia deixar de estimá-lo?

Depois, não eram aquelas as qualidades mais próprias para atrair na sociedade?

O nosso herói, aos vinte e dois anos, defendeu tese e recebeu a carta de doutor, formado em Direito pela Academia do Recife.

Por esse tempo, perdeu o pai. Já não tinha mãe, portanto recolheu a herança que lhe competia e foi viajar.

Dois anos depois, voltou ao Rio de Janeiro quase pobre. Vinha do estrangeiro farto de divertimentos cortesãos, sentindo fastio e aborrecimento das grandes cidades, então lembrou-se de ir visitar uma fazenda que possuía nos sertões do Ceará, para os campos do Jaguaribe: eis aí por que o encontramos pernoitando na povoação da Passagem das Pedras, onde ficou fascinado pela voz da fada encantada da gruta do Areré.

 

III

Dois tipos de criado

Pelas dez horas do dia, entrou Adriano satisfeito. Tinha arranjado tudo, inclusive a cozinheira, uma mulata de quarenta e tantos anos, asseada, bisbilhoteira e alegre.

Entrou desembaraçada e começou brigando a arrumar a cozinha e a especular ao criado pela vida do Dr. Edmundo.

Adriano respondia-lhe com chascos e burlas que a Úrsula, assim se chamava ela, tolerou a princípio; mas foram tais as gaiatices que ela perdeu a paciência e, deixando os bifes que estava temperando, empertigou-se toda e, pondo as mãos nas ilhargas, disse:

— Eu te arrenego, pé de pato; pensas, endemoninhado, que todos aqui são matutos? Eu também já andei lá pelas outras terras, já cozinhei para muitos senhores e senhoras de bem!

Adriano respondia-lhe com outras graças e piruetas.

— Vai-te para lá, maroto! — dizia a tia Úrsula meio séria, afinal, não teve outro remédio senão rir-se; pois ninguém podia zangar-se com aquele tipo de criado raro.

Ele também, como o amo, tinha seus predicados muito apreciáveis para os de sua laia. Além disso, era fiel, habilidoso, com jeito para tudo, gaiato, e um pouco entremetido dentro dos limites do respeito, falta esta que Edmundo tolerava em atenção às suas outras qualidades necessárias. Eram quase da mesma idade, o servia desde a infância, viajou com ele, portanto o estimava quanto era possível estimar um servo de muitos anos.

Com poucas horas de convivência com o criado do doutor, a gorducha cozinheira reconheceu que o seu gênio folgazão lhe quadrava perfeitamente, e virando-se às boas, com ares de santa, que não critica de nada, enquanto preparava o almoço, contava-lhe a vida da maior parte dos habitantes do lugar, acabando por dizer:

— Ainda agora há pouco, a Carlotinha me perguntou se o senhor doutor é casado ou solteiro, e eu disse: sei lá...

— É casado, sim — afirmou Adriano.

— Deixa-te de prosa, que eu já sei que não é...

— E por que não disse à moça o que sabia?

— Porque ela é um anjo, e não quero que vá se engraçar dos enfunados da cidade para depois ficar chorando de saudade enquanto eles se põem ao largo.

— Quem é esta Carlotinha, tia Úrsula? — perguntou Adriano.

— Caluda — disse a tia Úrsula, pondo o indicador sobre os lábios para fazer silêncio. — É a filha de D. Raquel, a professora aqui da casa vizinha, já hoje a vi à janela duas vezes.

— Ah! Já sei, é uma moça loura, bonita... — disse Adriano.

— Sim, senhor! Bonita e boa! A primeira cá da terra. O pai é arranjado, tem uma boa fazenda na mata, e depois a mãe também tem seu ordenado e traz a menina que é um gosto vê-la. Quando aparece uma moda, é a primeira a botá-la. E, aqui para nós, é a mais jeitosa; as outras são umas empanturradas, que lhes não acho sal.

E a cozinheira fazia trejeitos, arremedando as moças do lugar.

Adriano aplaudia a comédia e instigava a tia Úrsula a continuar nela; mas, de repente, perguntou:

— Mas que diabo é esta Funesta, de quem ouço falar por toda parte? Ainda pela manhã, quando fui às compras na taverna do Vital, ouvi dizer que é uma moça encantada que vive na gruta do Areré. Isso é verdade?

— Ai! quem dera que fosse mentira!... — disse a tia Úrsula comicamente triste. — Ainda esta noite pela madrugada andou ela por cá a fazer diabruras! Onde aparece deixa o sinal. Olhe, para o amanhecer de hoje, furtaram os porcos do Zé Pereira! Num samba que houve ali pra baixo, o pau roncou! E quem ficou com as cacetadas foi o pobre do Chico Timbaúba.

O Adriano deu uma gargalhada:

— Forte admiração, tia Úrsula; em toda a parte não se furta, não se briga? Ora, essa!

— Já vem o desavergonhado com as estúrdias dele — disse a cozinheira desconfiada. — Bem sei que em toda a parte se furta e se briga; mas isso aqui nunca se dava. Depois que a tal de Funesta começou a sair da gruta e a passear de noite pelo povoado... olha lá furto! Olha barulho! — disse ela, ainda arregalando os olhos e movendo a cabeça em sinal afirmativo.

— Olé! Que povo tolo! — exclamou Adriano.

— Tolos são vocês lá da cidade, que são uns incréus!

O Dr. Edmundo, que andava passeando da sala até a varanda, ouviu a conversa da cozinheira com Adriano, e durante o resto do dia não pensou em outra coisa senão na aparição da noite. O seu maior desejo era visitar a gruta.

 

 

IV

A visita à gruta

Era a hora da tristeza, aquela em que o sol, depois de ter brilhado no firmamento azul, mergulha nas róseas nuvens do ocaso, parecendo dizer um eterno e saudoso adeus ao dia que vai desaparecer para sempre no manto escuro do passado.

Saltando, cabeceando sobre as rochas, vinha um bando de cabras acompanhadas por uma rapariguinha de pouco mais de treze anos. Ela trajava vestido de chita roxa com ramagens encarnadas, trazia um fichu a tiracolo e calçava tamancos de marroquim verde.

A cabreira era morena e quase feia, mas sua fisionomia franca e alegre inspirava confiança e simpatia; acompanhando em zigue-zague o giro de suas cabras, ela trepava de rocha em rocha com a mesma alegria e com a mesma agilidade de seu rebanho!

Quedou-se de repente e seguiu pausadamente olhando a furto um elegante cavaleiro que vinha se aproximando. Este parou e disse, familiarmente:

— Por que andas ainda aqui a esta hora, Ritinha? Já não tens medo da Funesta?

— Cada vez tenho mais, senhor Edmundo — respondeu ela —, vou por aqui às carreiras; mas o que fazer? Não pude voltar mais cedo... as malditas das cabras só me faltaram por doida; trepa aqui, trepa ali, era um nunca acabar.

— E onde estava o Valentim que não veio ajudar-te? — disse Edmundo.

— Ele foi com meu pai cortar um pouco de rama e ainda não voltou — respondeu Ritinha, com desembaraço. — Mas o Dr. Edmundo também aqui a esta hora... não tem medo da Funesta?

— Tenho, menina, mas ando doido por encontrá-la.

— Deus o defenda, senhor doutor... Ela seria capaz de o fazer cair do cavalo e quebrar o pescoço!

— É tão má assim? — perguntou ele com um risinho de dúvida.

— Ora, se é — disse a menina, e afastou-se correndo atrás das cabras.

— Espera, Ritinha! — gritou Edmundo. — Ensina-me primeiro o caminho da gruta.

— Vai por aí mesmo — voltou-se ela, e apontou —, chegando ao pé daquele monte, sobe-se um bocadinho...

— Obrigado, até logo.

— Deus o leve, e Deus o traga... não vá ficar também encantado!

Edmundo partiu, cravando as esporas no cavalo; o animal tropeçava nas pedras da ladeira e as folhas secas estalavam-lhe nos cascos; mas ele, de cabeça quase a tocar na terra, buscava sempre direção oposta da que lhe dava o cavaleiro.

É que os brutos, que nós chamamos irracionais, têm mais exato conhecimento do perigo e sabem melhor livrar-se dele que o mais abalizado sábio!

Certamente um cavalo, uma cabra ou um gato sabe melhor o caminho que lhe convém à borda do precipício que o ser mais inteligente do mundo!

Bem depressa, o cavalo de nosso doutor chegou ao lugar indicado pela cabreira; mas ele foi que não deu com a gruta. Enquanto subia o monte, ia lendo em todas as pedras do caminho a palavra “Solitário”. Era bem merecido o nome, se era ele dado àquele lugar deserto e triste como a própria mágoa.

Chegado ao cimo da ladeira, Edmundo avistou uma grande pedra a poucos passos. Subia-se para ela por degraus naturais que chegavam ao assento daquele rústico trono trabalhado caprichosamente pela mão da natureza.

Edmundo estava amarrando o cavalo ao tronco de uma árvore quando viu assomar no alto da pedra a cabeça negra e felpuda do terra-nova que ele tinha visto no bote, na noite da serenata.

Subiu um montezinho de terra vermelha estrelado de malacacheta ou mica e, escondido por trás de uns arbustos, esperou.

Pouco depois, apareceu outro personagem do bote; era um enorme e feio orangotango vestido a marujo e trazendo, pendente do cinturão de couro de lustro, uma pistola.

— O orangotango é um mono sem cauda — disse Edmundo consigo. — Mas o que foi aquilo que vi rastejando à borda do bote para a água do rio? Provavelmente alguma corda atirada ao acaso; estou certo que o medo... ou a prevenção faz ver o que não existe.

Era tal o espírito de curiosidade que o dominava que nem ousava mexer-se, tinha os olhos fitos na arma de fogo que o mono afagava de vez em quando, e lhe parecia ver a cada instante brilhar um relâmpago, seu cavalo cair morto!

Mas tal não sucedeu, pois o suposto marinheiro contentou-se em dar um salto acrobático e cair escanchado na sela!

O animal, sob o peso do estranho cavaleiro, relinchou.

Imediatamente surgiu, no alto da escada de pedra, o vulto majestoso da cantora do bote, da fada do Areré.

— King! — exclamou ela com voz melodiosa e doce.

O orangotango foi sentar-se a seus pés no último degrau, obediente como um rafeiro.

Ela continuava de pé com os olhos fitos na extensão dos campos vizinhos. Era uma estátua de mármore.

Trajava veludo cor de púrpura ou flor de amaranto, e trazia ao peito, preso por uma roseta de brilhantes, um ramo de saudades.

Despregou-o e começou a desfolhar uma a uma as belas flores, fitando tristemente as petalazinhas perdidas em redemoinho pelos ares.

King tirou do bolso um cachimbo italiano e se pôs a fumar sossegadamente.

Edmundo estava suspenso; não podia formular uma só ideia sobre tão extraordinária e misteriosa criatura!

As tristes sombras da noite iam se estendendo cada vez mais. As avezinhas da serra chilreando pelos ramos se aproximavam dos ninhos, e os insetos zumbindo procuravam as cavernas; mas ela continuava a olhar os campos e o azul do céu. Tinha a vista embebida nas colunas de ouro que o sol desenhava nas nuvens, mergulhando por trás de um monte escarpado.

O nosso herói curioso, tendo necessidade de voltar antes que as trevas lhe alcançassem em caminhos que mal conhecia, resolveu sair do esconderijo e aparecer, fosse qual fosse o resultado.

A fada assustou-se, desceu precipitadamente os degraus de pedra e desapareceu no sopé do monte, seguida por King e o terra-nova.

Edmundo acompanhou-lhe os passos, e descobriu a entrada da gruta; mas tudo ali protestava contra a passagem de um ser humano!

Era impossível penetrar naquela caverna escuríssima, onde esvoaçavam em chusma repugnantes morcegos.

Ele partiu à desfilada para a povoação e chegou às sete horas da noite, cada vez mais atraído para a fada do Areré, chamada pelo povo – a Funesta.