Dez dias em um Hospício | Nellie Bly | Primeiro capítulo


Prefácio da editora

 

Antes de terminarmos a leitura deste livro, sentiremos uma de nossas mãos segurando o rosto, reclinado, enquanto pensamos: Como foi possível, um dia, tamanha crueldade?

A verdade é: só recentemente as pessoas atípicas estão sendo atendidas de forma humanizada. A brasileira Nise da Silveira (1905 – 1999) foi uma médica psiquiátrica que revolucionou o tratamento dos transtornos mentais em nosso país. Ela expôs as barbáries as quais as pessoas com deficiência intelectual eram submetidas no hospital psiquiátrico no qual trabalhava. O filme “Nise: O Coração da Loucura” (2005), estrelado por Glória Pires, é um retrato do desasseio, desrespeito e inflexibilidade aos quais os pacientes estavam sujeitos.

Hoje, não se utilizam mais os termos hospício, louco, insano ou qualquer outra palavra que difame ainda mais a já severa situação dos transtornos de humor e de personalidade. A decisão de manter os termos próximos aos descritos pela autora foi pensada com cuidado para o leitor poder compreender, de forma completa e palpável, como os atípicos eram vistos e tratados antigamente – e como isso hoje causa aversão, mais de cem anos depois.

A realidade já é triste demais, mesmo tantos anos após Sigmund Freud iniciar sua carreira de estudo e tratamento de quem antes era visto como um problema a ser trancafiado em grades distantes para seus gritos não serem ouvidos. Muitos dos transtornos são tratáveis e os recursos terapêuticos garantem uma melhora na qualidade de vida do paciente e dos familiares, mas muitas famílias não têm acesso a bons hospitais psiquiátricos, medicamentos ou terapias com profissionais especializados.

No caso de Nellie Bly, a corajosa jornalista que acompanharemos em “Dez dias em um hospício”, o problema não está apenas nos maus-tratos causados aos pacientes, mas em uma falta de conhecimento em relação aos transtornos, levando pessoas típicas (ou sem transtornos graves) a serem internadas, medicadas e maltratadas a ponto de desenvolverem fobias, manias e distúrbios, como no caso de “Bicho de Sete Cabeças”, filme nacional de 2001 estrelado por Rodrigo Santoro e baseado na autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno, ou a história também baseada em fatos reais de “Um Estranho no Ninho”, com a atuação de Jack Nicholson, lançado em 1976.

Existe uma luta antimanicomial cujo princípio é que o ambiente pode – ao menos enquanto não é aprimorado – piorar ou gerar novos transtornos para os pacientes, causando ainda mais sofrimento. Ao mesmo tempo, após o encerramento de diversos hospitais públicos, não é incomum encontrar pessoas precisando de auxílio psiquiátrico morando nas ruas e buscando outras formas disfuncionais de aliviar sua dor, como o uso de drogas ou suicídio.

Esperamos que este livro ajude a demonstrar que violência e negligência não ajudam na melhora do quadro ou bem-estar dos pacientes, e que as famílias convivendo com atípicos precisam de auxílio constante e meticuloso do governo para poderem, pacientes e familiares, viver mais satisfatoriamente.

Marina Avila, Editora da Wish

Introdução

Desde que minhas experiências no Hospício da Ilha de Blackwell foram publicadas no World, tenho recebido centenas de cartas sobre o assunto. A edição contendo a minha história esgotou faz tempo, e tenho tentado fazê-la ser republicada na forma de um livro para satisfazer as centenas de pessoas que ainda pedem uma cópia.

Fico feliz em poder declarar que, como resultado da minha visita ao hospício e das revelações daí advindas, a cidade de Nova York destinou US $ 1.000.000 a mais por ano para cuidar dos insanos. Portanto, tenho pelo menos a satisfação de saber que os pobres infelizes serão mais bem-cuidados por causa do meu trabalho.

Nellie Bly

Capítulo 1

Uma missão delicada

No dia 22 de setembro, o World perguntou se eu conseguiria fazer com que me internassem em um dos hospícios de Nova York, com o objetivo de escrever uma narrativa simples e clara sobre o tratamento dado aos pacientes lá confinados, os métodos de administração etc. Eu teria a coragem de enfrentar a provação exigida por tal missão? Eu seria capaz de fingir as características da insanidade de forma a enganar os médicos e viver uma semana entre os insanos sem as autoridades do lugar descobrirem que eu era apenas uma forasteira tomando notas? Respondi acreditar que sim. Tinha certa fé na minha habilidade como atriz e pensei que poderia fingir insanidade por tempo bastante para completar qualquer missão confiada a mim. Eu conseguiria passar uma semana na ala dos insanos na Ilha de Blackwell? Respondi que sim. E consegui.

Minhas instruções eram simplesmente continuar com meu trabalho habitual até sentir que estava pronta. Também, eu deveria narrar fielmente as experiências pelas quais passaria e, uma vez dentro dos muros do hospício, descobrir e descrever seu funcionamento interno, sempre tão bem escondido do conhecimento público, tanto pelos enfermeiros vestidos de branco quanto por barras e parafusos.

Nellie Bly Livro Dez dias em um Hospício

― Não pedimos que você vá até lá com o objetivo de fazer revelações sensacionalistas. Descreva as coisas como as encontrar, boas ou más, elogie ou acuse como achar melhor, e diga sempre a verdade. Mas tenho medo desse seu sorriso crônico ― disse o editor.

― Não vou mais sorrir ― respondi, e fui executar minha missão delicada e, como descobri mais tarde, difícil.

Se entrasse no hospício, o que mal esperava conseguir, eu não imaginaria que minhas experiências viessem a conter algo mais do que uma simples narrativa da vida naquele lugar. Não achava possível que tal instituição pudesse ser mal administrada e que crueldades existissem sob seu teto. Sempre tive o desejo de conhecer a vida no hospício com mais detalhes ― um desejo de ser convencida de que as mais desamparadas criaturas de Deus, os insanos, eram tratadas com gentileza e decência. Considerava exageradas ou fictícias as muitas histórias que havia lido sobre abuso nessas instituições, mas ainda tinha o desejo latente de saber a verdade.

Eu estremecia ao pensar no quanto os insanos estavam sob o poder de seus guardiões, e como alguém poderia chorar e implorar para ser libertado, tudo em vão, se tais guardiões não quisessem fazê-lo. Ansiosa, aceitei a missão de conhecer o funcionamento interno do Hospício da Ilha de Blackwell.

― Como você vai me tirar de lá depois que eu entrar? ― perguntei ao meu editor.

― Não sei ― ele respondeu. ― Mas vamos tirá-la mesmo que precisemos dizer quem você é, e com qual objetivo fingiu insanidade. É só entrar.

Eu não tinha muita fé na minha habilidade de enganar os especialistas em insanidade, e acho que meu editor tinha menos ainda.

Todos os preparativos para a minha provação foram deixados sob a minha responsabilidade. Apenas uma coisa foi decidida: eu prosseguiria sob o pseudônimo de Nellie Brown, cujas iniciais eram as mesmas do meu próprio nome e estavam bordadas na minha vestimenta, de forma a não haver dificuldade em acompanhar meus movimentos e me ajudar em qualquer complicação ou perigo que eu pudesse enfrentar. Havia maneiras de entrar na ala dos insanos, mas eu não as conhecia. Poderia adotar um dos dois caminhos: fingir insanidade na casa de amigos e deixar que me internassem por decisão de dois médicos competentes, ou alcançar meu objetivo através dos tribunais policiais.

Refletindo, pensei ser mais sensato não me impor aos meus amigos nem pedir a médicos de boa índole que me ajudassem em meu propósito. Além do mais, para chegar à Ilha de Blackwell, meus amigos teriam de fingir pobreza e, infelizmente para o que eu tinha e pretendia, meu conhecimento sobre as dificuldades dos pobres, exceto pela minha própria pobreza, era muito superficial. Por isso, decidi o plano que me levou ao cumprimento bem-sucedido da minha missão.

Consegui entrar na ala de insanos na Ilha de Blackwell, onde passei dez dias e dez noites e tive uma experiência da qual nunca esquecerei. Assumi a tarefa de representar o papel de uma pobre e infeliz louca e senti ser meu dever não fugir de nenhum dos resultados desagradáveis que viriam. Tornei-me uma das pessoas na ala dos insanos por aquele período, tive muitas experiências, vi e ouvi muito do tratamento concedido a essa classe indefesa de nossa população, e, quando havia visto e ouvido o suficiente, minha libertação foi prontamente garantida. Saí da ala dos insanos com prazer e arrependimento ― prazer por poder mais uma vez aproveitar a brisa fresca do céu. Arrependimento por não poder trazer comigo algumas das mulheres desafortunadas que viveram e sofreram comigo, e as quais, estou convencida, são tão sãs quanto eu era e sou agora.

Mas deixe-me dizer uma coisa: do momento em que entrei na ala dos insanos na Ilha, não fiz nenhuma tentativa de continuar a cumprir o papel de insana. Falei e agi da mesma forma como faço no dia a dia. No entanto, é estranho dizer que, quanto mais falava e agia como sã, mais louca todos pensavam que eu era, exceto um médico, cuja bondade e modos gentis não esquecerei tão cedo.











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