Princesa Pocahontas | Primeiro Capítulo


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Capítulo I

O retorno dos Guerreiros

 Pela floresta tomada pela neve vieram Opechanchanough e seus bravos, caminhando tão silenciosamente quanto os flocos de neve caíam ao redor deles. De suas escápulas desciam chumaços de cabelos escalpelados que seus silenciosos donos Monachans não ignoravam.

Mas Opechanchanough, a caminho de Werowocomoco para contar ao Chefe Powhatan a respeito da vitória conquistada sobre seus inimigos, não tinha certeza de que havia matado todo o grupo que ele e seus braços Pamunkey tinham atacado. A neve inesperada, caindo no fim do inverno, tinha sido soprada pelo vento para dentro de seus olhos, então não sabiam ao certo se alguns Monachans tinham conseguido escapar da vingança. E tão próximos das tendas da tribo de seu irmão, como estavam, o inimigo poderia ter armado uma emboscada. Por isso era importante que eles permanecessem em guarda, olhando atrás de cada árvore para ver se havia pessoas agachadas e mantendo os ouvidos bem aguçados de modo que nem um esquilo pudesse quebrar uma noz sem que eles soubessem onde o animalzinho estava.

Opechanchanough liderava a fila comprida que abria caminho em meio ao espaço amplo entre os enormes carvalhos, ainda cor-de-bronze com as folhas do ano passado. Ele manteve a cabeça erguida e para si repetia a letra da música de triunfo que pretendia cantar ao Chefe Powhatan, quando o líder dos Powhatans fosse chamado. E então, de repente, à frente de seu rosto, passou uma flecha.

Com um grito do líder, a fileira comprida se jogou para a direita, e cinquenta flechas vieram voando do norte – a direção de onde poderiam esperar o perigo. Mas o silêncio se manteve; não ouviram gritos de um inimigo escondido, nenhum sinal de outras criaturas humanas.

Opechanchanough perguntou a seus guerreiros de onde a flecha tinha vindo e, enquanto conversavam, outra flecha vinda da direita passou à frente de seu rosto.

— Um arqueiro ruim – resmungou ele —, que não consegue me acertar com duas tentativas. – Em seguida, apontando para um enorme carvalho que se bifurcava da metade para cima, ordenou:

— Peguem o inimigo!

Dois guerreiros correram em direção à árvore, para a qual todos olhavam fixamente agora. Era difícil distinguir algo em meio à neve que caía e à massa de flocos que havia se ajuntado na forquilha. Tudo estava branco ali, mas havia algo branco que se movimentou, e os dois bravos, ao alcançarem o tronco da árvore, gritaram animados e desdenhosos.

A figura de branco se movia depressa. Balançou-se em um galho e agarrou-se a outro mais alto, e parecia determinada a fugir de seus perseguidores até chegar ao topo da árvore. Mas os guerreiros não perderam tempo e subiram atrás dela. Saltavam como panteras. Agarraram-se ao galho e o balançaram com força para a frente e para trás, fazendo os pés da criatura escorregarem e ela acabar caindo em seus braços estendidos.

Não esperaram nem sequer para ver do que se tratava o monte de pelos brancos. Os guerreiros, cercados pelos companheiros curiosos, levaram a criatura a Opechanchanough e a colocaram no chão diante dele, que se ajoelhou e ergueu o capuz de pele de coelho que escondia-lhe o rosto. E então gritou, assustado e irado:

— Pocahontas! O que pretende pregando essa peça?

E o monte de pelos brancos, levantando-se, riu e riu até o guerreiro mais velho e sério não conseguir conter um sorriso. Mas Opechanchanough não sorriu – estava bravo demais. Sua dignidade estava ferida por ter sido alvo da piada de uma criança. Ele chacoalhou a sobrinha, dizendo:

— Perguntei o que pretende com isso. O que pretende?

Pocahontas parou de rir e respondeu:

— Queria ver com meus próprios olhos o tamanho da coragem que vocês têm, tio, e ver se são bons guerreiros quando um inimigo ataca. Não sou uma arqueira tão ruim. Só não atiraria em você, por isso mirei além de onde estavam. Mas foi divertido ficar sentada na árvore observando vocês pararem tão de repente.

Sua explicação fez com que a maior parte do grupo caísse na risada.

— Na verdade, o nome dela é bem adequado – eles disseram. — “Pocahontas” quer dizer “criança levada”.

— Tenho outro nome – disse ela ao guerreiro velho mais próximo dela. — Sabe qual é? Matoaka, pequena pena de neve. Sempre que as luas de popanow nos trazem neve, ela me chama para brincar. “Vamos, Pena de Neve”, diz a neve, “venha correr comigo e me jogar para cima”.

O tio já tinha recuperado a calma e estava prestes a começar a seguir em frente de novo. Virando-se para os dois que tinham capturado Pocahontas, ele disse:

— Já que pegamos uma prisioneira, vamos levá-la ao Chefe Powhatan para que ele a julgue. Se tivéssemos atirado de volta em direção à árvore, ela poderia ter morrido. Não deixem que ela escape.

E então, ele seguiu em frente em meio à floresta, sem dar mais atenção à Pocahontas.

Os jovens bravos olharam com timidez um para o outro e para sua cativa, não muito satisfeitos com a tarefa. Uma ordem de Opechanchanough não podia ser desobedecida, mas não era fácil segurar uma jovem moça contra sua vontade, e não poderiam usar – ou tentar usar – de força contra uma filha do poderoso cacique.

Ao notar a hesitação deles, Pocahontas começou a correr para a esquerda, e eles foram atrás dela. Conseguiram alcançá-la antes que ela percorresse a distância de três flechadas, e a levaram, com delicadeza, de volta para à fila. Ela caminhou tranquilamente ao lado deles como se não notasse suas presenças, até eles se distraírem, acreditando que ela havia se conformado com a situação, para então fugir pela direita – e de novo foi capturada e levada de volta. Ela sabia que eles não ousariam prendê-la, e tirou vantagem disso para envolvê-los em uma dança, primeiro correndo para um lado e depois para o outro. Atrás deles, os companheiros gritavam e riam sempre que a moça fugia.

A ordem normal do grupo não estava mais sendo preservada enquanto avançavam. Eles tinham passado do ponto onde não havia mais nenhuma possibilidade ou perigo de ataque hostil. Werowocomoco estava agora a uma curta distância; a fumaça vinda da tribo já podia ser vista nos campos que cercavam a tribo de Powhatan. Os guerreiros mais velhos andavam em grupos, falando sobre seus feitos naquele dia e elogiando os feitos de vários dos bravos jovens que tinham lutado pela primeira vez. Pocahontas e seus captores agora seguiam bem mais atrás.

Apesar de satisfeita com os resultados de sua empreitada e diversão, Pocahontas não queria ser levada para dentro da casa como uma cativa, ainda que fosse meio de brincadeira. Seu pai talvez não achasse tão engraçado e, além disso, ela não gostava de ser contrariada. Estava tão pensativa que se esqueceu de continuar a brincadeira e continuou caminhando, acompanhando as passadas mais compridas dos guerreiros, apressando os passos de vez em quando. Os rapazes, pensando muito na primeira campanha, levavam sempre a mão às mechas escalpeladas com carinho, e prestavam pouca atenção a ela.

Ela parou como se fosse ajeitar o mocassim, e então, como eles seguiram andando um pouco até pararem para esperá-la, ela se mandou como um raio e escorregou para dentro de um buraco antes que eles reagissem e fossem atrás dela.

Já estava quase escuro e seus pelos brancos não podiam ser distinguidos da neve. Antes que eles descessem pela mesma abertura, Pocahontas, que conhecia cada centímetro do chão que era menos familiar aos homens da tribo de seu tio, já tinha voltado para a floresta cercada pelos campos nos quais seus perseguidores agora corriam, e pôde se perder na escuridão.

Opechanchanough não soube dessa fuga. Ele pretendia explicar a seu irmão que uma criança poderia fazer travessuras se não fosse mantida em casa realizando tarefas domésticas em sua oca. E não importava se Pocahontas era ou não a filha preferida de Powhatan, pois deveria esperar do lado de fora da cabana do pai até que ele relatasse o ocorrido e falasse sobre os feitos gloriosos realizados por seus Pamunkeys.

Agora, eles tinham chegado a Werowocomoco, e o barulho dos gritos e dos tambores de guerra fez com que os moradores saíssem de suas tendas. Como os Pamunkeys eram uma tribo aliada, a causa deles contra um inimigo comum era a mesma, mas a alegria da vitória contra os Monachans era menor do que teria sido se os vencedores fossem Powhatans. No entanto, Opechanchanough e seus guerreiros não podiam reclamar da recepção oferecida, e os homens da frente partiram para avisar Powhatan da chegada deles enquanto todos os moradores da tribo se reuniam ao redor deles – os homens questionando e os meninos tocando as mechas, comentando quantas eles teriam na escápula quando crescessem.

O grande cacique não estava em sua cabana, mas em uma na qual ele apenas dormia e comia quando estava em Werowocomoco. Opechanchanough parou na entrada da tenda e ordenou:

— Quando eu chamar, tragam Pocahontas, e veremos o que o Chefe Powhatan pensa de uma menina mimada que atira flechas em guerreiros.

A tenda estava quase escura quando ele entrou. Diante do fogo no centro, ele conseguiu ver seu irmão Powhatan sentado, ladeado por cada uma das esposas. Então, reconheceu os traços de seu sobrinho Nautauquas e a irmã mais nova de Pocahontas, Cleopatra. Era evidente que eles tinham acabado de jantar, e os cães atrás deles roíam os ossos de peru que lhes tinham sido jogados. Aos pés do Chefe Powhatan, havia uma criança agachada com roupa escura, o rosto à sombra.

Powhatan cumprimentou seu irmão com seriedade e fez sinal para que ele se sentasse. A tenda logo ficou cheia com guerreiros próximos uns dos outros, e perto da entrada se aglomeraram todos os que puderam, e estes repetiram aos homens e às mulheres índias do lado de fora as palavras que eram ditas lá dentro.

Orgulhosamente, Opechanchanough começou a contar que tinha seguido os Monachans a um monte acima do rio, e que ele e seu grupo de guerra os tinham atacado, fazendo-os rolar ladeira abaixo, matando e escalpelando, chegando a nadar na água gelada para pegar aqueles que tentavam fugir. E o Chefe Powhatan assentia aprovando, murmurando de vez em quando uma palavra elogiosa. Quando Opechanchanough terminou seu relato, o xamã – ou curandeiro – se levantou e entoou uma canção de louvor aos bravos Pamunkeys, irmãos dos Powhatans.

Depois, um a um, os guerreiros de Opechanchanough contaram sobre suas explorações pessoais.

— Eu – disse um —, eu, o Lobo da Floresta, devorei meu inimigo. Muitos sóis devem se pôr vermelhos entre as árvores da floresta, mas nenhum tão vermelho quanto o sangue que jorrou quando minha faca afiada escalpelou o inimigo.

E conforme cada um contava seus feitos, as palavras eram recebidas com salvas de palmas e gritos de incentivo.

Powhatan deu ordens para abrir a tenda de visitas e preparar um banquete para os visitantes. Então, Opechanchanough se levantou de novo para falar. Quando terminou outra canção de triunfo, virou-se para Powhatan e perguntou:

— Irmão, há quanto tempo seus guerreiros estão dentro das tendas, deixando às jovens índias a tarefa de sentinelas que não conseguem distinguir amigos de inimigos?

Powhatan olhou para o homem, assustado.

— O que quer dizer com palavras tão estranhas? – perguntou o cacique.

— Enquanto voltávamos pela floresta – explicou Opechanchanough —, antes de chegarmos ao fim dos campos, quando ainda acreditávamos que uma parte dos Monachans podia estar armando uma emboscada para nós ali, uma flecha, vinda do oeste, passou diante de meu rosto. Em seguida, veio uma segunda flecha, dos galhos de um carvalho. Pegamos quem estava atirando com o arco, e o senhor consegue imaginar quem encontramos? Uma menina índia!

— Uma menina índia! – repetiu o Chefe Powhatan, surpreso. — Era de nossa tribo?

— Sim, irmão. Eu estou com ela aqui fora, para que você possa pronunciar seu julgamento sobre alguém que colocou em risco, com o que fez, a vida de seu irmão, esquecendo-se que não é um garoto. Tragam a prisioneira – disse ele, dando ordem.

Mas ninguém apareceu. Os jovens bravos que tinham a tarefa de conter Pocahontas se mantiveram atrás da multidão, espertos que eram.

Então, a pequena figura aos pés de Powhatan se levantou e ficou de pé com a luz do fogo iluminando seu rosto e os cabelos pretos, e perguntou com a voz delicada:

— O senhor me chamou, meu tio?

— Pocahontas! – exclamou Opechanchanough. — Como pôde chegar aqui antes de nós, e com essa roupa preta?

— Pocahontas consegue correr melhor ainda do que consegue atirar, tio, e trocar de roupa é algo que demora poucos instantes.

— Por que fez o que fez, Matoaka? – perguntou o Chefe Powhatan, usando o apelido especial dela, que significava Pequena Pena de Neve. Ele falava com a voz baixa, mas tão séria que Cleopatra estremeceu e ficou feliz por não ser a culpada.

— Foi só uma brincadeira, meu pai – respondeu Pocahontas. — Eu não queria ferir ninguém. – Ela abaixou a cabeça e esperou até poder falar de novo.

— Não aceito brincadeiras desse tipo em minha terra – disse ele, irado. — Lembre-se disso.

Com um gesto da mão e uma ordem sussurrada, ele mandou os guerreiros Pamunkey para a tenda de visitas. Opechanchanough, ainda com raiva da situação ridícula à qual uma criança o havia submetido, permaneceu para perguntar:

— Não vai puni-la?

— Claro que vou – respondeu Powhatan. — Quero que vocês todos fiquem na tenda de visitas, e logo estarei lá. Vá, Nautauquas, e leve meu cachimbo para lá.

Naquele momento, eles estavam sozinhos na tenda: o grande cacique de mais de trinta tribos e sua filha, que ainda mantinha a cabeça baixa. Chefe Powhatan olhou para ela com curiosidade. Ela esperou até que ele falasse, mas como ele ficou quieto, ela se virou e olhou diretamente em seu rosto, perguntando:

— Pai, o senhor sabe como é difícil ser garota? Nautauquas, meu irmão, corre depressa, mas eu corro mais rápido do que ele. Consigo atirar tão reto quanto ele, ainda que não tão longe. Consigo ficar sem comer e sem beber tanto tempo quanto ele. Consigo dançar sem me cansar, sendo que ele fica ofegante. Mas ainda assim, Nautauquas será um grande guerreiro e eu – ouço me lembrarem de que sou uma garota. Não é difícil, meu pai? Por que, então, me deu braços e pernas fortes, além de um espírito que não se aquieta? Não me culpe, meu pai, porque preciso rir, correr e brincar.

Enquanto ela falava, caiu de joelhos e abraçou os pés dele; e quando parou de falar, sorriu destemida, olhando no rosto do pai.

Chefe Powhatan tentou não se emocionar com o pedido da menina. Mas ele era um cacique que sempre repreendia quem fazia coisas erradas e dava desculpas para tais erros, e julgava as pessoas de modo justo, ainda que, às vezes, duro. Ele gostava tanto daquela filha quanto o calor do verão gostava da correnteza. Se, às vezes, a água espirrasse alto demais, como poderia se enfurecer?

E Pocahontas, ao ver que a raiva dele já tinha passado, ficou de pé e apoiou a cabeça em seu braço. Ninguém precisava dizer a ela que o poderoso Powhatan não amava esposa, nem nenhum filho tanto quanto a amava. Em seguida, ele acariciou seus cabelos e rosto macios, e ela soube que tinha sido perdoada.

— Seu tio está muito bravo – disse ele.

— O senhor tinha que ter visto a cara dele, pai, quando a flecha passou – disse ela, rindo ao se lembrar.

— Prometi punir você.

— Sim, o senhor vai me punir. – Mas ela não disse aquilo com medo.

— Escute bem o que direi – disse ele, fingindo seriedade. — Você deve bordar para mim, com suas próprias mãos e não com agulhas de índia, um manto de pele de guaxinim com penas e conchinhas bonitas.

Pocahontas riu.

— Isso não é punição. É estranho, mas quando faço coisas de que não gosto para as pessoas que amo, sinto prazer em fazê-las. Farei para o senhor um manto como o senhor nunca viu. Ah! Vai ser lindo. Farei novos desenhos como nenhuma outra índia sonhou em fazer. Mas o senhor nunca ficará bravo comigo, não é? – ela suplicou. — E se, em algum momento, eu fizer algo que desagrade ao senhor… Se puder vestir o manto que eu farei, permita que ele seja um símbolo entre nós, e que quando eu tocá-lo, o senhor me perdoe e me conceda o que peço.

Powhatan prometeu e sorriu para ela antes de partir em direção à tenda de visitas.

 

 















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