Celese | Marina Avila | O Hospício de Muskov


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1906.

Fui feita destes pequenos pedaços de estrelas, como pode ver. Perdoe a expressão, quero dizer na verdade que você não pode ver; são pequenos demais para os olhos, mas vibram em energia como as das lâmpadas piscando no corredor lá fora. Por isso, sabia que minha vida seria, de certa forma, infinita.

Aquela foi minha última noite em Muskov. Senti-me como uma pequena borboleta desejando causar um furacão do outro lado do mundo, mas que acabou morta por um corvo faminto. Minhas asas nunca foram o bastante para voar mais alto que os predadores.

No entanto, eu ainda cintilava com vida. Meu cérebro havia se desconectado aos poucos do corpo e, embora não percebesse, fui dia após dia perdendo minha vontade de fugir e fazer algo pelo mundo que havia me esquecido.

Por favor, deixe-me contar sobre minha última noite em Muskov. Eu me lembrava de tudo.

O vento congelante adentrava através das janelas, avançava pelos corredores e insensibilizava meus pés graças ao chão frio. Andar descalça, porém, não foi o pior que Muskov me causou. Pelo menos, eu ainda podia andar.

Sorri ao saber que meu corpo ainda era meu. Os enfermeiros não precisaram me puxar com violência. Em minha última noite viva, sabendo que não havia saída, eu só queria acompanhar o embalo melancólico que o pôr do sol havia me proporcionado naquele momento. O som dos meus passos junto aos das pessoas ao meu lado formavam uma melodia tão calma que, estou certa disso, não sairia da minha mente.

Eles fingem nos dar uma última chance ao nos colocar de frente ao chefe do departamento médico. O Dr. Krupin terminava de comer uma Solyanka na própria mesa de trabalho quando chegamos. Os enfermeiros foram delicados ao me pedir para sentar, o que, pela primeira vez, causou um grande incômodo.

Eles estão sendo gentis porque sabem que vou morrer.

O Dr. Krupin entregou o prato sujo para uma enfermeira, que se retirou da sala, deixando-me a sós com dois homens. Sem sentir uma energia feminina, soube que tinha minha condenação assinada.

— Celese, boa noite.

— Boa noite, Dr. Krupin.

Ele disfarçou um sorriso entre os dentes amarelados.

— Sempre foi muito mais educada do que os outros pacientes. Universidade de São Petesburgo, se me lembro bem?

A mesma universidade que me colocou atrás destas paredes frias, pensei.

— Sim. Física.

— Ah, Celese. Eu adoro física. A filosofia da natureza!

— Bem... É uma forma de lermos a poesia da natureza.

— Ah, lermos! – o Dr. Krupin enrugou os olhos, fixando-os nos meus. — E o que a física nos escreveu, Celese?

Naquele momento, soube que, mais uma vez, havia me denunciado. No outro segundo, senti que não importava a resposta. Então, eu poderia ao menos morrer em paz ao dizer a verdade.

Esgueirei o olhar para o enfermeiro ao lado, que distraidamente limpava o nariz. O Dr. Krupin era realmente meu público final.

— A física escreveu quem somos, quem éramos e para onde vamos.

— Quem somos, Celese?

— Poderia dizer que somos pequenos demais para se ver de fora, Dr. Krupin. Pequenos mundos de criaturas internas, energia, vida... Como se não vivêssemos sós.

Ele negou com a cabeça de forma tão leve que, se eu tivesse piscado, teria perdido o movimento.

— E você disse mais. Disse sobre o que éramos e para onde vamos.
Abaixei a cabeça, fazendo-o continuar:

— Não se acanhe, Celese. Preciso ouvi-la. Estamos aqui para isso.

— Dr. Krupin, acho que me enganei. Os remédios mexeram um pouco com a minha cabeça – e pensei como todo e qualquer ser humano que, por mais compreensão que tenha, acaba sentindo medo da morte iminente e faz qualquer coisa para evitá-la. — Desculpe, com certeza não sei quem éramos e para onde vamos.

O homem corpulento bateu a mão tão forte contra a madeira da mesa que seu tinteiro caiu, derramando uma matéria tão escura quanto a própria noite lá fora.

— Não sou homem de se enganar, senhora. A Inglaterra pode ter sido fácil em sua infância, mas a Rússia não aceita mentiras.

— É c-claro, Dr. Krupin – respondi, sentindo a garganta arder ao segurar uma lágrima. — Certa vez, eu disse que... que somos feitos de estrelas. E vamos voltar a elas daqui a muitos, muitos anos, quando a Terra não mais existir.
A verdade me faria morrer em paz?

— Continue...

— Nossos ossos, pele, órgãos e vida são feitos de energia, como a que nos ilumina neste momento. Como... como as lâmpadas de Edison.

— Edison é um homem de Deus, – ele respondeu entre dentes cerrados — e sua criação só nos ajuda a enxergar seu esplendor. Se a ajuda a enxergar um desígnio diferente da gênese divina, seu problema está além do mental. Eu poderia entregá-la à Igreja, mas gosto de oferecer mais chances aos meus pacientes.

— A Igreja não condena mais a ciência, Dr. Krupin. Já passamos das trevas.
Embora minha voz parecesse firme, jamais me senti tão vazia por dentro. Vivi uma infância feliz na Inglaterra, com pais estudados que sempre desenvolveram minhas habilidades de questionar. Cursar física na Rússia e acreditar que eu ainda vivia com meus pais me causou a maior solidão do mundo: eu morreria sem vê-los. Morreria sem que eles soubessem. Eles estavam velhos e sentiram-se em paz com minha partida, já que iria focar-me em continuar o trabalho de meu pai fora do país. Estudar, mesmo não estando mais tão jovem, ensinar e viver pela física.

— Você, Celese, está trazendo as trevas de volta – o Dr. Krupin voltou minha atenção para suas mãos de unhas longas ao estender o dedo indicador próximo a meu rosto. — Estamos em guerra e as pessoas precisam de Deus.

— Sermos feitos de estrelas nos torna mais próximos a Ele! Não vê? Somos um universo de criações! Todos iguais! Todos feitos do mesmo...
Ele se levantou em um bote e chutou a cadeira em que sentava para longe.

— Eu... não... sou... – seu esforço para falar causava-lhe tanta dor que a veia da testa saltava como uma serpente a devorar seu cérebro e inchar-se de prazer — igual a você! Igual a essas pessoas de quem cuido!

O enfermeiro agora mexia repetidas vezes na orelha, mas ainda de forma despreocupada. Era como se a explosão de raiva de Krupin fosse tão comum quanto as manhãs de neve em Muskov. Nada iria me tirar daquele lugar.
Naquela noite, eu me sentia viva novamente, pronta para ouvir mais da sinfonia da natureza. Mesmo com Krupin e tantos outros, muitos que ainda mereciam saber a verdade – uma verdade que eu não poderia ajudar a descobrir.

— Eu sinto muito.

Ele andou da janela para o armário, e novamente do armário até a janela, formulando seus próprios pensamentos.

— A universidade em que estudou foi fundada por Pedro, o Grande, o czar que desrespeitava completamente as leis de Deus – vi seu nariz se apertar em aversão. — É por isso que uma mulher como você pôde estudar lá. Celese... eu entendo que foi a universidade que lhe causou isso. Essas... ideias malucas. Mas você sabe que as mulheres já são mais fracas para acreditarem em qualquer coisa. Por isso, me ajude a lhe ajudar – seu rosto se virou para mim e as sobrancelhas tremeram ao se levantar, em uma atuação pouco magistral.

— A universidade já há muito perdeu o espírito de Pedro, o Grande, doutor. O novo reitor é um homem de Deus.

— Sim, está certa. E o reitor percebeu o perigo de mantê-la lá.

— E aqui estou, Dr. Krupin. Aqui estou.

O médico bufou quase em silêncio. Levantou a cabeça ao pedir para o enfermeiro se retirar.

Puxou a cadeira lascada do chão e sentou-se ao meu lado. O som da madeira arrastando lembrou-me de todas as vezes que meu próprio corpo era arrastado contra o piso de Muskov.

Sua mão tocou meu joelho, arranhado depois de tantas vezes em que tentei fugir dos enfermeiros.

— Você tinha um lindo futuro, Srta. Celese. Não se casou, não teve filhos, decidiu abdicar de sua vida pelos estudos para acompanhar um trabalho que seu pai trouxe da escuridão.

Afastei meu joelho de sua mão com cuidado.

— Minha vida sempre será dos estudos, doutor.

Ele retirou a mão completamente e, inclinando-se para trás, sorriu:

— A sua vida é minha, Celese.

Seu jogo durou mais algumas horas, em que me obrigava a falar ou chorar em troca de pequenas doses de “eu posso lhe ajudar”.

Quando se cansou, o Dr. Krupin pegou o carimbo vermelho e o bateu contra minha ficha.

— Estamos decididos. Sabe que pode escolher um último desejo, e recomendaria a solyanka, que está especialmente saborosa hoje. Então, o que será? – perguntou, desinteressado.

— Peço só que... não contem a meu pai que morri. Ele já está velho demais e perdeu minha mãe há alguns meses. É a única coisa.
Ele torceu o lábio e passou a caneta no chão, onde o tinteiro havia quebrado.
As primeiras letras falharam no papel pela tinta já ter começado a secar, então a única parte que ficou escrita foi, também, o pior que Muskov fizera contra mim, mesmo depois de me amordaçarem por trás e me levarem para a sala de lobotomia:

A última frase da ficha dizia apenas: “contem ao pai que morreu”.

Naquele momento em que o médico não consertou seu erro, percebi que todas as suas perguntas tentavam desvendar meu único lado delicado. A última coisa que ele queria machucar dentro de mim e que não era atingida através da carne.
E ao meu pai eu pediria desculpas, caso realmente algum dia voltássemos a ser estrelas, unidos mais uma vez pela energia, e diria que faria de tudo para lhe causar orgulho, nunca dor.

E eu, talvez, jamais saberia em vida que meu pai havia falecido poucos dias antes de minha condenação, em paz em sua cama, abraçado a um desenho que eu fizera de minha mãe. Que o que lhe causava orgulho foi exatamente o que me fez morrer jovem demais; a minha entusiasmada, inquebrável e galopante determinação, moldada no calor de uma estrela há muito apagada, mas que continua a dar vida a tudo que jamais vimos, amamos ou criamos até então.

Eu saberia então que, aquecendo lâmpadas, esculpindo montanhas e vivendo em pequenas criaturas que observam o céu, a energia que certa vez habitou em mim, por fim, perdura e sobrevive em paz, infinitamente.

Uma homenagem a Carl Sagan, o pai de minha admiração pelas estrelas.


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