Por que os medievais acreditavam em monstros?


Vivemos na Era da Informação. Temos acesso a praticamente qualquer dado em qualquer momento na palma de nossas mãos. Desde opiniões de colegas até artigos científicos, podemos buscar praticamente qualquer coisa que nos interesse conhecer em uma rede 4G, em qualquer lugar que estejamos.
Hoje, não precisamos mais acreditar em histórias de pescadores para saber sobre o fundo do oceano, podendo simplesmente pesquisar em fontes confiáveis por criaturas abissais, suas fotos e biologias.
Porém, há não-tantos-anos-assim, o mundo era bem diferente.

Criando Manuscritos

Antes de 1450, praticamente todos os materiais já publicados eram manuscritos. Muito diferente das impressões em massa, cada manuscrito demorava meses ou anos para ser finalizado. O processo de produção era como um trabalho de formigas, dependendo de um mestre com capital para comissionar, e a disponibilidade de artistas para escrever e iluminar a obra.
É conhecido que alguns manuscritos, na época, custavam o preço que hoje seria pago por uma fazenda, tornando suas produções exclusivas para reis, clérigos e nobres.
O processo de criação de um manuscrito consistia na preparação do pergaminho, que era a pele de animais como ovelhas, cabras ou vacas, em uma confecção trabalhosa. As peles eram deixadas de molho na água de cal de três a dez dias para que os pelos se soltassem. Depois, era limpa e esticada para que ficasse reta, e então raspada por vários dias. O resultado após a secagem total era uma superfície suave que duraria por milhares de anos.
Para que pudesse receber a escrita e a tinta, ela era mais uma vez raspada, agora com pedra-pomes, e então cortada em retângulos que seriam as páginas.
O escriba utilizava penas e tintas que ele mesmo criava. As penas eram embebidas em água e então deixadas em areia quente para endurecer e secar. O escriba esculpia a ponta no formato necessário para que a tinta descesse com precisão pela fresta. Já a tinta era feita com galhas de carvalhos ou substâncias de carbono.
Quando o escriba finalizava seu fino trabalho, o processo era então passado para o iluminador – ou miniaturista, o artista que criava as famosas ilustrações dos manuscritos.
O iluminador fazia um esboço, também com penas e tintas, e pintava com tintas coloridas feitas de uma variedade de materiais minerais e vegetais moídos e dissolvidos em uma substância. Alguns iluminadores também usavam folhas metálicas de ouro para decorar certas partes do manuscrito.
Com seu trabalho finalizado, o iluminador repassava as páginas para o encadernador. As páginas eram costuradas com linho e amarradas à fitas rígidas de couro. Estas fitas eram então atadas a blocos finos de madeira que serviriam como a estrutura da capa. Por fim, o volume era coberto por couro costurado ou metal. As capas geralmente possuíam uma cinta apertada para que ficassem sempre fechadas, pois o pergaminho enverga e se retrai com grande facilidade.

Então, monstros…

Por este processo longo, trabalhoso e caro, o acesso às informações era restringido aos nobres e, mesmo assim, pouco se conhecia sobre os manuscritos de outros reis e clérigos, já que as bibliotecas eram particulares. Muito diferente de hoje, esses conhecimentos não eram amplamente compartilhados, e cada homem precisava de suas próprias histórias para acreditar.
Com uma silhueta no campo em noites de lua-cheia, os aldeões imaginavam monstros e suas histórias se perpetuavam pelas vilas. Muitos viajantes voltavam de suas navegações com contos de bestas marinhas, e os povos do Oeste garantiam que os monstros moravam no Leste, enquanto os povos do Leste tomavam como certo que o Oeste era cheio de criaturas fantásticas. Com pouco contato entre si, necessitando de viagens a cavalo ou caminhadas de meses para se chegar em poucas centenas de quilômetros de trilhas no frio, neve e chuva, os aldeões em geral precisavam acreditar no que lhes era contado.
Não há um culpado, já que todas as informações chegavam da mesma forma nos ouvidos medievais, que pouco conheciam – ou eram autorizados a criar – processos científicos para desmistificar lendas e religiões.
Porém, muitas coisas mudaram na Era da Luz, quando Gutenberg massificou as prensas móveis.

Imprimindo em prensas móveis

Embora o período medieval tenha sido de grande avanço para a ciência e a arte, e é possível verificar um progresso dos manuscritos de 1100 d.C. para 1400 d.C., Johannes Gutenberg protagonizou uma nova Era que é tão – ou até mais – importante quanto a invenção dos computadores de hoje e seus processos de produção rápidos e precisos.
A população aos poucos deixou para trás uma era de conhecimentos restritos e adentrou a massificação nas cópias de livros.
Prensas móveis tomaram o lugar de escribas, funcionando como carimbos nas páginas. Cada folha era preparada em uma moldura recheada de letras em alto relevo. A moldura era prensada contra a tinta, e então contra a página. Isso possibilitou que os livros, que antes eram acessíveis apenas a nobres, fossem disponibilizados em massa em bibliotecas, universidades e nas residências da população.

Conhecimento ao longo dos séculos

Nunca foi tão fácil comprar um livro como hoje. Os avanços e industrializações das gráficas baratearam o custo de impressão, tornando possível que best-sellers a livros de nicho sejam publicados por todo o mundo. Só no Brasil são vendidos mais de 40 milhões de livros por ano – número até pequeno comparado à população.
Ao longo dos séculos, a tecnologia, ciência e conhecimento popular foram avançando, conforme os mitos e pseudociências foram deixados para trás. Porém, vivemos em uma era com tantas informações estabelecidas sem pesquisas, que as fake news (notícias falsas) tornaram-se quase tão populares quanto as informações reais – e úteis – que deveríamos receber todos os dias.
Voltamos a acreditar em curas milagrosas, pílulas emagrecedoras tóxicas e pele rejuvenescida com Adobe® Photoshop® a um clique de distância. Uma lembrança do período vitoriano e seus cigarros que curavam asma.
Talvez o excesso de informações e a facilidade em acessá-las tenha tomado uma proporção errada, e o caminho do conhecimento foi mais uma vez desviado – dessa vez não pela falta de acesso, mas por sua simplicidade de compartilhamento.

Voltando às origens das publicações

A pesquisa, questionamentos e experimentos podem voltar a estar do lado da população e não acessível apenas a estudiosos, nobres e cientistas.
Sem curadoria e indicações especializadas, não sabemos em que acreditar, e ficamos à mercê de publicidades que nos desviam da sabedoria e saúde – física e psicológica – reais.
Só nos cabe esperar que essa nova era possa corrigir seu curso, e que as informações impressas e digitais trabalhem novamente para o bem-estar, instrução e entretenimento da sociedade, para que deixemos de ter medo de monstros marinhos, aprendamos sobre meteorologia e possamos construir nossos navios para navegar tranquilamente até o destino que quisermos.
Utópico, mas qual Era nunca buscou ser melhor que a anterior?

 

 

Este texto é a introdução do livro Do Incrível ao Bizarro, disponível pela Wish


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