Como a Wish entrou no financiamento coletivo?


É difícil acreditar, quando olhamos para o passado, que a Editora Wish nasceu apenas para comercializar um TCC. 

O Contos de fadas em suas versões originais era o meu Trabalho de Conclusão de Curso para a faculdade de Produção Editorial. Para o primeiro volume, imprimimos 10 exemplares para a banca avaliadora e, como o título fez sucesso entre os colegas, decidimos imprimir mais 300 para as vendas. Abri a Editora Wish em outubro de 2013 apenas para solicitar o ISBN e abrir a loja virtual. Com o marketing feito quase exclusivamente nas redes sociais e com a divulgação gratuita de alguns contos, vendemos os 300 exemplares em cerca de um ano. É quase uma cópia por dia, então posso dizer que estávamos felizes porque o livro havia dado certo e encontrado seu público. Nas últimas páginas do livro, fizemos publicidade dos próximos volumes, então com alguma frequência recebíamos e-mails perguntando sobre a data de lançamento do segundo título. 

E, por mais que o livro tivesse vendido os 300 exemplares, não havia sobrado nada. Com cálculos imperfeitos de frete, taxas de cartão e embalagens, o valor recebido possibilitou a reimpressão de mais 150 exemplares – e só. O caixa da Wish estava zerado e, pelos meus cálculos, precisaríamos de ao menos 17 mil reais para publicar o segundo volume com tradução, revisão, impressão e envios.

Pesquisei muito e inscrevi o livro na lei Rouanet, sem sucesso. Não tinha amigos ou parentes abastados para investir no projeto e eu mesma tinha minhas próprias contas para pagar, o que dificilmente levaria a uma economia de 17 mil reais em pouco tempo. 

A chegada no crowdfunding

A chegada da Editora Wish no financiamento coletivo foi inspirada por alguns artistas que, na época, haviam realizado campanhas de sucesso com livros diferentes e colecionáveis. Mesmo assim, costumo dizer que caímos de paraquedas nesse universo, porque começamos o nosso primeiro projeto sem saber como tudo funcionava.

O financiamento coletivo foi um oásis, embora eu desconfiasse de sua força no começo. Com cara de dúvida – mas boa vontade –, gravei o vídeo feito com uma câmera emprestada, criei os mockups do livro, brindes e peças promocionais para mídias sociais, e lancei o projeto timidamente, pedindo R$ 2.950 em uma meta flexível. Eu realmente não acreditava que iria conseguir mais do que isso. Devo dizer que o lançamento da campanha foi emocional, motivada pelo sonho de ver o segundo volume impresso. Eu não tinha como inteirar os R$ 14.000 que faltariam no orçamento; mas no final de exatos dois meses, em julho de 2016, a campanha havia arrecadado R$ 25.474, um número que me fez pular de felicidade! Com isso, foi possível realizar todos os serviços, refazer a revisão do primeiro livro, adicionar um conto extra e reimprimir o primeiro volume em impressão offset em vez de digital, o que melhorou muito a qualidade do material, além de promover as famosas metas estendidas com brindes fofos. O chaveiro oferecido na época com uma imagem da Polegarzinha ainda é o chaveiro da minha casa. Não troco ele por nada.

Com ajuda da minha mãe, fizemos as mais de 400 embalagens e as levamos até os Correios. Se podia ter sobrado qualquer valor para o caixa da Wish, o transporte levou. Então, no fim, eu tinha impresso ao menos 300 exemplares a mais de cada livro para venda enquanto o terceiro e último volume não vinha. Se tivesse calculado tudo corretamente, poderia ter publicado o terceiro volume com o valor recebido dos dois iniciais – mas, por sua vez, o caixa teria ficado zerado para a reimpressão dos dois primeiros, o que levaria a uma quebra da trilogia e poderia decepcionar novos leitores na época. 

O terceiro volume

Recorri então, mais uma vez, ao financiamento coletivo, já em 2017. Estava um pouco mais ousada – pedi R$ 7.957, embora estivesse longe do cálculo real necessário de aproximadamente R$ 18.000. Senti vergonha de pedir o valor real, sem saber explicar que um projeto traduzido tem valores tão elevados. Acreditei também que o sucesso da primeira campanha fosse devido à gentileza dos leitores em me ajudar a publicar e que essa gentileza não se repetiria. Somos criados com o pensamento de nos tornar independentes, mas nossa visão de independência é bastante distorcida. Ninguém é totalmente independente dos outros, todos fazemos constantes trocas. A independência reside em escolher quais trocas faremos, com quem e o que temos a oferecer. 

Então, prova de que a autoconfiança não é o primeiro lugar da lista dos quesitos necessários para realizar uma campanha, mais uma vez escolhi a meta flex sem saber como pagaria pelo restante dos serviços. Avisei aos leitores que lançaria o terceiro volume, divulguei a capa, divulguei imagens do miolo, fiz um vídeo engraçado de pré-campanha informando que a edição traduziria o famoso conto A Bela e a Fera e, mais uma vez, preparei as melhores peças e apresentação que eu poderia na época. Estava receosa, mas sabia que estava trabalhando com carinho e profissionalismo e esperei que os possíveis apoiadores notassem essa paixão pelo tema. 

Lançamento da campanha dos Contos de Fadas, volume 2, em uma hamburgueria. 

Em maio daquele ano, a campanha deste volume alcançou R$ 29.550 com 481 apoiadores. O que parecia um valor alto possibilitou que eu pagasse todas as contas – incluindo uma nova reimpressão dos volumes 1 e 2, e retirasse um pagamento para mim de R$ 700. É distante do valor real dos serviços de três capas e três diagramações que eu havia feito, mas era meu primeiro pagamento da Wish. Até hoje, foi o único pagamento que recebi vindo de um financiamento coletivo. Depois disso, sempre preferi usar todo o valor disponível para imprimir mais exemplares. Após este período, contamos com o auxílio constante da Valquíria Vlad, que na época havia apenas começado a cursar Publicidade e topou acompanhar as loucuras da editora. 

A Enciclopédia e o renascimento de um projeto

Depois disso, enquanto fazia uma pesquisa sobre artes antigas, tive a sorte de achar milhares de obras fantásticas, como manuscritos e livros vitorianos que variavam entre o belo e o estranho. A pesquisa tomou noites a fio antes de decidirmos que seria um material único e novo para publicar. Seria então um livro de luxo com imagens e explicações sobre estes livros encontrados, chamado Do Incrível ao Bizarro. Inspiradas pelas enciclopédias e emocionalmente envolvidas com o livro, por sermos fãs de arte, fizemos todos os cálculos necessários e chegamos ao valor de R$ 52.327, com o livro custando R$ 98 para os apoiadores. Era um valor justo, já que em livrarias volumes semelhantes custavam de R$ 120 a R$ 150, mas o projeto não alcançou a meta. Tivemos de repensar a forma de publicar e o que o público buscava. O projeto ficou na gaveta por mais um tempo até retornar com projeto gráfico, formato, preço e meta refeitos. Desta segunda vez, em janeiro de 2019, ele havia alcançado 881 pessoas e R$ 67.711. Foi o primeiro livro colorido que publicamos. Nos ensinou a não desistir do que acreditamos, mas sim repensar em como realizar. Nem sempre é possível insistir em algo que não funcionou da primeira vez.

Sweeney Todd e a campanha em uma semana

Pouco antes desta campanha refeita, chegamos a uma descoberta que direcionou todas as próximas publicações da Wish. Sweeney Todd, o musical tão conhecido e adaptado para os cinemas pelo produtor e diretor Tim Burton, foi inspirado em um excelente livro de 1846 – e ele nunca havia sido publicado no Brasil! Exatamente uma semana após essa descoberta, já com alguma prática em apresentações, peças e vídeo, lançamos o livro no Catarse. Foi uma aposta arriscada e sem o prazo ideal de uma pré-campanha, mas, como já existia um filme que era conhecido pelos fãs de terror, além da Wish já ter publicado livros de suspense nacionais, o projeto suportou uma campanha completa sem precisar de tanto tempo de marketing prévio – naquela mesma semana em que preparávamos o material do financiamento, fomos soltando pequenas dicas de que haveria um novo projeto no Catarse, publicando fotos dos atores do filme e apontando as origens da história como referência. As pessoas curtiram o jogo de adivinhação e muitas já sabiam do que se tratava o projeto antes mesmo dele começar. O livro alcançou 572 pessoas e, mesmo tendo ultrapassado a meta, fechando em 159%, tivemos um baque no orçamento. Trocamos os tradutores, tivemos problemas com o fornecedor de canecas e o livro precisou de licenciamento para usar as ilustrações originais. É possível que o projeto tenha dado um prejuízo inicial de pelo menos R$ 10.000, que foi amenizado com as vendas da tiragem remanescente após o lançamento. 

Neste ponto, começamos a perceber que o financiamento coletivo não é apenas uma aventura para viabilizar projetos – é coisa séria. Envolve custos, gastos, promessas, trabalho. Erros de orçamento em uma campanha maior poderiam custar um empréstimo caro para pagar todos os serviços. 

Os Contos Nórdicos e o estabelecimento da Wish no financiamento coletivo

Então, no final de 2018, chegou a campanha que estabeleceu a Wish como o projeto de literatura com o maior número de apoiadores da época; Os melhores contos de fadas Nórdicos, fruto de uma pesquisa de anos, alcançou uma marca que acreditávamos ser impossível: R$ 137.477 com 1515 apoiadores. Isso também possibilitou uma nova edição da trilogia dos contos de fadas originais, desta vez transformada em um livro capa dura com miolo em tinta especial, mesmo modelo usado em Contos de fadas Nórdicos. O livro conseguiu destaque na Folha de S. Paulo, no jornal O Povo e em centenas de blogs que auxiliaram na divulgação. Atualmente, o recorde de maior número de apoiadores em Literatura pertence ao Os melhores contos de fadas Celtas, com 3330 apoiadores, também publicado pela Wish.

A partir daí, o processo de empacotamento foi se tornando cada vez mais profissional e contou com o reforço de três empacotadores trabalhando 10 horas por dia durante 15 dias, tudo para atender à demanda e à ansiedade dos apoiadores, pois o prazo de entrega já estava atrasado. Tivemos um trabalho muito maior que o imaginado e a produção do livro levou dois meses a mais do que o previsto. Perdi o feriado do Natal, usei inúmeros dias e noites em pesquisas, diagramação, preparação do projeto, rediagramações e, em muitas noites, simplesmente não tinha a criatividade necessária para criar mais uma página diferente da anterior. Esses, assim como a enciclopédia Do Incrível ao Bizarro, foram projetos esgotantes por exigirem muita pesquisa e árduo trabalho gráfico. Nunca recebi um pagamento fixo por estes serviços. Tudo é feito pelo prazer de ver o livro chegando à casa dos apoiadores e pelo crescimento da editora. Por esses dois objetivos primordiais, tudo que nos propomos a fazer – e essa talvez seja a lição mais poderosa deste livro – é feito com amor, profissionalismo e pela aspiração em publicar títulos inéditos com qualidade. Financiamento coletivo é só o meio de fazer isso acontecer.

 No entanto, não incentivamos que você faça o mesmo. Para muitas pessoas, o valor do trabalho no orçamento de uma campanha significa o próprio sustento durante o período em que precisam ficar dedicadas à produção do projeto. Não receber pelo meu trabalho como designer foi uma escolha pessoal. Considero isso como uma forma de investir na minha própria editora, embora hoje todos os colaboradores – inclusive eu – consigamos tirar uma parte do nosso sustento dos rendimentos na loja da Wish, com a venda dos exemplares remanescentes.

Um lançamento para conhecer os apoiadores

Ainda sobre a campanha dos contos nórdicos, chegamos a fazer um lançamento numa hamburgueria com temática medieval de São Paulo. Não contabilizamos exatamente o número de pessoas que estiveram presentes, mas posso afirmar que no mínimo 100 leitores compareceram, todos numa masmorra escura ladeada de alegres músicas nórdicas selecionadas por nós. Aquele clima intimista me fez perceber, enquanto tentava organizar e contabilizar em planilhas a entrega dos livros, que aquelas pessoas estavam realmente ansiosas para receber o material e, tão logo eu os entregava, elas corriam para uma mesa vazia e começavam a folhear! Nós, enquanto realizadores, mexemos constantemente com números, nomes, endereços e etiquetas, mas neste evento nos lembramos do primordial: as pessoas simplesmente querem receber um presente que elas deram a si mesmas, um presente de que elas participaram e ajudaram a criar. E o idealizador é o responsável por aquela felicidade na hora da entrega. 

Novos projetos e aprendizados

Depois dos Contos Nórdicos, as campanhas da Wish continuaram acontecendo e, a cada novo projeto, aprendemos algo novo. Tivemos longas conversas com outros idealizadores, bate-papos, ministramos palestras, aulas e participamos de podcasts com intensas trocas de experiências. Percebemos que cada idealizador trabalha de forma diferente e lida com o público com sua própria energia. Cada campanha tem seus problemas e dificuldades, mas descobrimos que todos os idealizadores se orgulham de suas publicações, mesmo nas campanhas difíceis. Afinal, eles fizeram o que a maioria acaba receosa em fazer: tentar. 
A Wish só existe hoje por conta do apoio de milhares de leitores, dos profissionais que nos acompanharam e de ganharmos, pouco a pouco, a confiança de tentar algo novo. E se não der certo, que fiquem os aprendizados, já que os projetos continuam! 

E, pessoalmente, se eu voltasse atrás, faria tudo exatamente igual, porque começar com projetos pequenos e ousar um pouco mais a cada campanha foi o que estabeleceu os fãs da editora, que acompanham o trabalho e torcem, ajudam e divulgam pelo sucesso, assim como a sua base de fãs pode crescer ou se tornar mais próxima de você com o seu próprio financiamento coletivo. Começar com campanhas mais seguras possibilitou que aprendêssemos sem grandes perdas e que pudéssemos ter a chance de provar nosso trabalho para os leitores. 

No financiamento coletivo existe sim o lado profissional, mas a emoção e a parceria são o que transformam qualquer campanha em um projeto de sucesso. Isso jamais deve ser perdido. 

E é isso – e muito mais – que gostaríamos de mostrar para você neste livro, Crowd, o guia do financiamento coletivo para editores e autores de livros. Esperamos que o conteúdo seja útil e te ajude a preparar as melhores campanhas para suas publicações!


Marina Avila 
Fundadora da Wish & designer editorial

 


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