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04/10/2018

Leia o primeiro capítulo de Sweeney Todd (livro antigo)


Antes de se tornar um famoso musical, dirigido por Tim Burton e estrelando Johnny Depp e Helena Bonham Carter, em versões dubladas e legendadas, Sweeney Todd foi um personagem de livro de 1846. Você pode ler o primeiro capítulo aqui!

 

 

Prefácio da edição inglesa

Como o Barbeiro Demoníaco de Fleet Street despertou um interesse quase sem precedentes no mundo literário, convém ao autor dizer algumas palavras a seus leitores após a conclusão de seus trabalhos.
Em resposta a muitos questionamentos que têm sido feitos, de tempos em tempos, sobre se uma pessoa como Sweeney Todd existiu, um pouco hesitantes podemos dizer que certamente existiu um homem como ele, e que o registro de seus crimes ainda pode ser encontrado em relatos de criminalidade deste país.
A casa na Fleet Street, que foi o cenário dos crimes de Todd, não mais existe. Um incêndio, que destruiu cerca de meia dúzia de construções daquele lado da rua, causou a destruição da casa de Todd, mas a passagem secreta, ainda que, sem dúvida, parcialmente bloqueada pela reconstrução da Igreja de St. Dunstan, ligando as câmaras de lá às adegas que eram da casa de Todd na Fleet Street, ainda está lá.
Pelo grande apoio que este trabalho recebeu do público leitor, o autor expressa seus profundos e sinceros agradecimentos. E faz questão de afirmar que algo que poderia estimulá-lo a seguir se esforçando para agradar a seus vários leitores é a valorização gentil e cada vez maior de seus trabalhos anteriores.

Londres, 1850.

 

 

Capítulo Um

O cliente estranho da Barbearia

Antes de a Fleet Street alcançar sua atual importância, quando George III era jovem e antes de as duas estátuas que tocavam os sinos da antiga igreja de St. Dunstan atingirem seu apogeu — tornando-se alvo da curiosidade e espanto das pessoas do interior — havia, ao lado da sagrada construção, uma pequena barbearia, mantida por um homem chamado Sweeney Todd.
Como ele recebeu o nome “Sweeney”, não sabemos dizer, mas este era seu nome, como era possível ver em letras garrafais e amareladas bem acima da vitrine de seu estabelecimento por qualquer pessoa que decidisse olhar para lá.
Os barbeiros da Fleet Street daquela época ainda não estavam na moda. Não sonhavam em ser chamados de artistas, tampouco em prosperar, assim como não costumavam, como fazem agora, matar os mais belos ursos. Ainda assim, as pessoas tinham cabelos na cabeça da mesma forma como agora, sem usar aqueles produtos gordurosos. Além disso, Sweeney Todd, como seus amigos naqueles tempos tão antigos, não via a menor necessidade em ter manequins de cera com perucas em sua vitrine. Não havia nenhuma jovem abatida meneando a cabeça para que uma profusão de madeixas ruivas pudesse descer pelo seu pescoço, tampouco grandes conquistadores e homens do Estado ridicularizavam-se com ruge nas faces, um pouco de pólvora espalhada para servir de barba e uns fios duros formando as sobrancelhas.
Não. Sweeney Todd era um barbeiro dos antigos, e ele nunca pensou que deveria se gabar à custa de circunstâncias extrínsecas. Ainda que vivesse no palácio de Henrique VIII, teria sido para ele o mesmo que viver em um canil. Era difícil acreditar que o ser humano fosse tão imaturo a ponto de pagar seis centavos a mais para fazer barba e cabelo em qualquer lugar que fosse.
Um cabo comprido pintado de branco, com uma listra vermelha espiralada ao longo dele, avançava em direção à rua, preso à porta da barbearia. E na vitrine via-se a seguinte parelha:

Barba feita por um centavo
Preço certo, sem conchavo.

Não citamos essas frases como amostra da poesia da época — elas podem ter sido criadas por algum jovem estudante de direito —, mas ainda que deixassem a desejar no traquejo poético, compensavam muito no modo claro e preciso com que expunham seu sentido.
O barbeiro em si era um sujeito comprido e desconjuntado, com uma boca enorme, e mãos e pés tão imensos que o faziam, à sua maneira, muito curioso. O mais incrível, dada à sua área de atuação, eram seus cabelos. Não sabemos com o que compará-los: provavelmente próximo do que se pode imaginar da aparência de uma cerca-viva cheia de fios entrelaçados. Na verdade, era uma incrível cabeleira; e como Sweeney Todd mantinha todos os pentes dentro dela — e alguns diziam que também as tesouras —, quando ele punha a cabeça para fora da porta para ver como estava o tempo, era possível que fosse confundido com algum guerreiro indígena e seu belo cocar.
Era dono de uma risada curta e sem graça, que aparecia nas horas mais inesperadas nas quais ninguém via motivo algum para rir, provocando sustos nas pessoas, principalmente quando estavam sendo barbeadas e Sweeney Todd interrompia a operação abruptamente para se dar a uma daquelas efusões sem controle. Ficava claro que a lembrança de alguma piada muito esquisita e descabida às vezes lhe ocorria, e então ele soltava a risada tal qual a de uma hiena — curta, repentina e aguda —, e logo sumia. As pessoas costumavam olhar para o teto, para o chão e ao redor de onde estivessem para saber da origem daquele som, quase sem acreditar que pudesse ter saído dos lábios de um mortal.
O sr. Todd estreitava um pouco os olhos para aumentar seu charme; e assim acreditamos que, neste momento, o leitor já deve imaginar o indivíduo que desejamos apresentar. Algumas pessoas o consideravam um homem relaxado e inofensivo, sem muito juízo, e às vezes até o julgavam um pouco maluco; mas outras balançavam a cabeça, incrédulas, quando falavam dele. Ademais, não poderiam dizer nada de mau sobre ele, apenas que o consideravam esquisito e, levando em conta que é um crime e uma contravenção ser esquisito neste mundo, não nos surpreende ver que Sweeney Todd não era nem um pouco admirado.
Mas, apesar de tudo isso, ele tinha um negócio próspero e era considerado um homem bem-sucedido e, como diziam na cidade, simpático.
Era tão prático para os estudantes de Temple passar pelo estabelecimento de Sweeney Todd e raspar o queixo que, da noite para o dia, ele passou a administrar um negócio lucrativo, e evidentemente se tornou um homem de bens.
Só havia uma coisa que parecia, de alguma forma, não combinar com a grande prudência do caráter de Sweeney Todd: o fato de ele arrendar uma casa grande, da qual ocupava apenas a loja e o salão, deixando a parte de cima totalmente sem uso e recusando-se com veemência a deixá-la livre, independentemente das condições.
E assim eram as coisas, em 1785 da era Cristã, no que dizia respeito a Sweeney Todd.
O dia estava chegando ao fim. Uma chuva fina caía, deixando poucos pedestres nas ruas. Sweeney Todd estava dentro da barbearia, sentado, observando com atenção o rosto de um garoto que se mantinha de pé diante dele, porém retraído e trêmulo.
— Você deve se lembrar — disse Sweeney Todd, fazendo uma careta horrorosa ao falar —, deve se lembrar, Tobias Ragg, que agora é meu aprendiz, que de mim recebe casa, comida e roupa lavada, com a exceção de que não dormirá aqui, fará suas refeições em casa e que sua mãe, a sra. Ragg, lavará suas roupas, o que pode muito bem fazer, já que é lavadeira em Temple, recebendo muito dinheiro por isso. Quanto à moradia, vai ficar aqui, como sabe, muito confortável na barbearia durante todo o dia. Não se sente um cachorrinho feliz?
— Sim, senhor — disse o garoto, com timidez.
— Aprenderá uma profissão de valor, tão boa quanto o direito, o qual sua mãe me disse que queria que você seguisse, o que não foi possível devido a uma leve incapacidade intelectual de sua parte. Agora, Tobias, preste atenção, ouça bem e guarde o que vou dizer.
— Sim, senhor.
— Corto seu pescoço de uma orelha a outra se você repetir uma palavra que seja do que acontecer aqui, ou se ousar fazer qualquer suposição ou tirar qualquer conclusão de alguma coisa que possa ver e escutar, ou até imaginar ver e escutar. Você entendeu? Corto seu pescoço de uma orelha a outra… entendeu?
— Sim, senhor, não vou dizer nada. Que eu seja transformado em tortas de vitela da Lovett’s, em Bell Yard, senhor, se eu disser qualquer coisa que seja.
Sweeney Todd se levantou da cadeira; e abrindo a boca enorme, olhou para o garoto por um ou dois minutos em silêncio, como se pretendesse devorá-lo todo, mas ainda não tivesse decidido bem por onde começar.
— Muito bem — disse ele, por fim. — Estou satisfeito, assim, bem satisfeito; e preste atenção: a barbearia, e só ela, é onde você deve ficar.
— Sim, senhor.
— E se algum cliente lhe der um centavo, pode ficar com ele, pois com uma quantidade boa deles, será rico; mas cuido deles para você, e quando os quiser, deixarei que os pegue. Saia agora, vá ver que horas marca o relógio da St. Dunstan.
Havia uma pequena multidão reunida na frente da igreja, pois as estátuas estavam prestes a bater quinze para as sete; e no meio da multidão, estava um homem que olhava para elas com a mesma curiosidade de todos.
— Agora é hora! — disse ele. — Eles vão começar. Puxa! Que engenhoso. Veja o homem erguendo seu bastão, e vai dar com ele no velho sino.
Os três quartos de hora foram marcados pelas estátuas, e as pessoas que tinham se aglomerado para ver, muitas das quais viam a mesma coisa todos os dias há anos, se afastaram, com exceção do homem que parecia muito interessado.
Ele ficou e, deitado a seus pés, estava um cachorro com ar nobre, que também observava as estátuas; e vendo a atenção com que seu dono olhava, dedicou-se a demonstrar o maior interesse possível.
— O que você acha disso, Hector? — perguntou o homem.
O cachorro soltou um gemido baixo e curto, e seu dono continuou:
— Tem uma barbearia do outro lado. Talvez devesse dar uma passada lá antes de seguir meu caminho, já que preciso visitar as moças e dar-lhes a triste notícia do falecimento do pobre Mark Ingestrie, e só Deus sabe como Johanna vai reagir. Acredito que vou reconhecê-la pela descrição que o coitado fez dela. Eu me entristeço agora, lembrando de como ele costumava falar dela nas noites longas de vigília, no silêncio, quando não havia a menor brisa para soprar seus cabelos. Chegava a vê-la às vezes, em pensamento, pois ele me falava de seus olhos suaves e radiantes, dos lábios delicados formando um beicinho e das covinhas próximo da boca. Bem, não adianta se lamentar; ele morreu afogado, coitado, e água salgada cobre o coração mais valente que já existiu. Mas sua amada Johanna receberá o colar de pérolas mesmo assim; e se ela não pode ser a esposa de Mark Ingestrie neste mundo, será rica e feliz enquanto nele permanecer. Ou tão feliz quanto for possível, pois certamente deverá ansiar por encontrar-se com ele no céu, onde não existem ventos e tempestades. Assim sendo, vou me barbear de uma vez.
Ele atravessou a rua na direção da barbearia de Sweeney Todd e, descendo os degraus da entrada, se viu cara a cara com o estranho barbeiro.
O cachorro rosnou baixo e farejou o ar.
— Minha nossa, Hector — disse seu dono —, o que há? Acalme-se, acalme-se.
— Morro de medo de cachorros — disse Sweeney Todd. — O senhor se importaria de deixá-lo aqui fora à sua espera, se não for atrapalhar? Veja como ele está, vai me atacar!
— Nesse caso, o senhor será a primeira pessoa a quem ele ataca sem ser provocado — disse o homem —, mas acho que ele não gosta de sua aparência, e devo confessar que isso não me surpreende muito. Já vi uns sujeitos bem esquisitos na vida, mas juro que nunca vi uma figura como o senhor. E que diabo de barulho foi esse?
— Fui eu — disse Sweeney Todd. — Só dei uma risada.
— Só deu uma risada! Chama isso de risada? Acho que o senhor a contraiu de alguém que morreu do mesmo problema. Se é seu jeito de rir, imploro que não ria mais assim.
— Segure o cachorro! Segure! Não quero cachorros correndo no meu quintal.
— Aqui, Hector, aqui! — gritou seu dono. — Pra fora!
Muito contrariado, o cachorro saiu da barbearia e se abaixou perto da porta, que o barbeiro tomou o cuidado de fechar, dizendo algo sobre as rajadas de vento. E então, olhando para o aprendiz encolhido num canto, disse:
— Tobias, meu rapaz, vá à Leadenhall Street, e traga um saco pequeno de biscoitos grandes da casa do sr. Peterson; diga que são para mim. Bem, senhor, creio que queira fazer a barba, e que bom ter vindo aqui. Eu não deveria dizer, mas não há barbearia na cidade de Londres onde façam barbas tão bem quanto eu.
— Pois direi uma coisa, grande senhor barbeiro: se rir de novo desse jeito, vou me levantar e ir embora. Não gosto daquela risada, e não falarei outra vez.
— Muito bem — disse Sweeney Todd enquanto preparava a espuma. — Quem é o senhor? De onde veio, para onde vai?
— Está fria, é o que posso dizer. Inferno! Por que está passando o pincel de barba na minha boca? Não dê risada, pelo amor de Deus! E já que gosta tanto de fazer perguntas, responda uma para mim.
— Ah, sim, claro. O que quer saber, senhor?
— Conhece um homem chamado sr. Oakley, que mora em algum lugar em Londres e fabrica óculos?
— Sim, claro que conheço. John Oakley, o oculista da Fore Street. Ele tem uma filha chamada Johanna, a quem os garotos chamam de “Flor da Fore Street”.
— Ah, coitadinha! Eles dizem isso? Mas que inferno! De que está rindo agora? O que pretende com isso?
— O senhor não disse “coitadinha”? Vire um pouco a cabeça para o lado, assim. O senhor já viu o mar?
— Sim, vi, e recentemente subi o rio voltando da Índia.
— Não me diga! Onde pode estar meu afiador? Estava aqui agora mesmo, devo tê-lo deixado em algum lugar. Estranho não encontrá-lo! Muito esquisito, onde foi parar? Ah, eu me lembro, eu o levei ao salão. Fique sentado, senhor, volto em um instante. A propósito, pode se distrair com o jornal.
Sweeney Todd entrou na sala dos fundos e fechou a porta. Ouviu-se um barulho esquisito de repente, algo parecido com uma movimentação apressada, seguido de uma batida forte. Assim que Sweeney Todd retornou, olhou para a cadeira vazia onde seu cliente havia se sentado antes, mas ele não estava mais ali e não deixou outro traço de sua presença além de seu chapéu, que Sweeney Todd pegou no mesmo instante e jogou dentro de um armário que ficava em um canto da barbearia.
— O que foi isso? — perguntou ele. — O que foi? Pensei ter ouvido um barulho.
A porta se abriu devagar, e Tobias apareceu dizendo:
— Com licença, senhor, eu me esqueci do dinheiro, e vim correndo de volta do pátio da igreja St. Paul.
Com duas passadas, Todd se aproximou dele, segurando-o pelo braço. Arrastou-o para o canto mais distante da loja, onde permaneceu de pé com os olhos arregalados, sustentando uma expressão tão demoníaca que o garoto se sentiu aterrorizado.
— Fale! — gritou Todd. — Fale logo! E fale a verdade, ou sua hora terá chegado! Quanto tempo você passou espiando pela porta antes de entrar?
— Espiando, senhor?
— Sim, espiando. Não repita minhas palavras, só me responda de uma vez, que vai ser melhor para você, no fim das contas.
— Eu não estava espiando, senhor, de jeito nenhum.
Sweeney Todd respirou fundo e então, com um jeito esquisito e uma voz meio estridente, intencionalmente jocosa, disse:
— Bem, muito bem, bem, bem. E se você tiver espiado? Não importa. Eu só queria saber, só isso. Foi uma boa piada, não foi? Bem engraçada, ainda que meio esquisita, não é? Por que não ri, cachorro? Vamos, não faz mal. Conte-me o que pensou daquilo de uma vez, e ficaremos satisfeitos com o assunto… muito satisfeitos.
— Não sei do que está falando, senhor — disse o garoto, que estava quase tão assustado com a risadinha do sr. Todd quanto com sua raiva. — Não sei a que se refere, senhor. Só voltei porque não tinha dinheiro para pagar pelos biscoitos na loja dos Peterson.
— Não me refiro a nadinha — disse Todd, virando-se de costas de repente. — O que é esse arranhar na porta?
Tobias abriu a porta da barbearia, e ali estava o cachorro, que olhou com olhar pidão ao redor, e deu um rosnado que muito assustou o barbeiro.
— É o cachorro daquele cavalheiro, senhor — disse Tobias. — O cachorro do cavalheiro que estava observando o relógio da igreja de St. Dunstan, e que entrou aqui para fazer a barba. Engraçado, não é mesmo, senhor, que o cachorro não tenha ido embora com seu dono?
— Por que não ri, se é engraçado? Coloque o cachorro para fora, Tobias. Não quero cães aqui dentro. Detesto vê-los. Coloque-o para fora… pra fora.
— Eu faria isso, senhor, em um instante, mas acredito que ele não me deixaria, não sei por quê. Veja só, senhor… veja o que ele está aprontando agora! O senhor já viu um camarada tão violento assim? Minha nossa, ele vai derrubar a porta do armário.
— Faça com que ele pare… faça com que pare! Este animal está possuído. Mandei fazer com que ele pare!
O cachorro certamente abriria a porta, mas Sweeney Todd se apressou a impedi-lo. Logo se arrependeu, porém, do ato perigoso, já que o cachorro mordiscou sua perna e arrancou do barbeiro um uivo alto de dor que o fez recuar na hora, deixando o animal à vontade para fazer o que bem queria. E o que ele quis foi abrir a porta do armário, pegar o chapéu que Sweeney Todd havia jogado ali dentro, e sair da barbearia com ele entre os dentes de modo triunfal.
— O animal está possuído — murmurou Todd —, está maluco. Tobias, você disse ter visto o homem que é o dono dessa peste olhando para a igreja de St. Dunstan.
— Sim, senhor, eu o vi ali. Se o senhor se recorda, mandou-me ver as horas, e as estátuas iam marcar quinze para as sete. E antes de voltar, eu o ouvi dizer que Mark Ingestrie estava morto, e que Johanna deveria receber o colar de pérolas. Em seguida, entrei e então, se o senhor se recorda, ele entrou. O mais esquisito, senhor, foi ele não ter levado o cachorro consigo, sabe por quê?
— Por que, o quê?! — gritou Todd.
— Porque as pessoas normalmente levam seus cachorros com elas, sabe, senhor, e pode ser que eu seja transformado em uma das tortas da Lovett’s.
— Silêncio! Alguém está chegando. É o velho sr. Grant, da Faculdade de Direito. Como tem passado, sr. Grant? Fico feliz por vê-lo tão disposto, senhor. Faz bem para o coração ver um cavalheiro de sua idade aparentemente tão bem e saudável. Sente-se, senhor, um pouquinho para cá, por favor. Creio que tenha vindo se barbear?
— Sim, Todd, sim. Alguma novidade?
— Não, senhor, nada novo. Tudo está muito calmo, exceto o vento forte. Dizem que o vento levou o chapéu do rei ontem, senhor, e que ele pegou emprestado o de Lorde North. Os negócios estão fracos também, senhor. Acredito que as pessoas não saem para se assear em dias de chuva. Não recebemos ninguém na barbearia há uma hora e meia.
— Nossa! — disse Tobias. — Olha, o senhor se esqueceu do cavalheiro do mar com o cachorro, sabe?
— Ah, sim, é verdade — disse Todd. — Ele se foi e eu acredito tê-lo visto entrar em uma confusão na esquina do mercado.
— Fico surpreso por não tê-lo encontrado, senhor — disse Tobias —, porque eu vim de lá e foi muito estranho o fato de ele ter deixado o cachorro para trás.
— Sim, muito — disse Todd. — Pode nos dar licença por um minuto, sr. Grant? Tobias, meu rapaz, quero que você me dê uma mão no salão.
Sem qualquer desconfiança, Tobias acompanhou Todd até o salão. Quando chegaram ali e a porta foi fechada, o barbeiro pulou em cima dele como um tigre raivoso e bateu sua cabeça na parede tantas vezes que o sr. Grant deve ter pensado que algum carpinteiro estava martelando a madeira. Em seguida, arrancou um punhado de cabelos do garoto. Virou-o e o chutou tão forte, que o rapaz foi jogado em um canto da sala. E então, sem nada dizer, o barbeiro saiu e voltou para onde estava seu cliente, mas trancou a porta do salão por fora, deixando Tobias digerindo a reprimenda que havia ganhado do modo que mais lhe fosse conveniente.
Quando voltou para onde estava o sr. Grant, desculpou-se por deixá-lo esperando e disse:
— Precisei, senhor, ensinar algumas coisinhas sobre o trabalho a meu novo aprendiz. E o deixei estudando agora. Nada como ensinar os jovens de uma vez.
— Ah! — disse o sr. Grant, suspirando. — Sei como é deixar os jovens se rebelarem, pois apesar de não ter esposa nem filhos, cuidei do filho de uma irmã. Um rapaz bonito, intenso e irresponsável, muito parecido comigo. Tentei fazer dele um advogado, mas não foi possível; e agora faz mais de dois anos que ele me deixou; mas mesmo assim, Mark tem boas qualidades.
— Mark, senhor? O senhor disse Mark?
— Sim, é o nome dele, Mark Ingestrie. Só Deus sabe o que aconteceu com ele.
— Oh! — disse Sweeney Todd; e seguiu barbeando o queixo do sr. Grant.

 

 

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O livro original de 1846 vitoriano que inspirou o musical

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