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29/11/2016

Como escrever sobre distúrbios mentais sem cometer gafes


Por Rúbia Dias

Este ano, a Editora Wish abriu um concurso para a antologia Hospício de Muskov. Como requisito para o conto, o(a) escritor(a) precisa abordar algum tema relacionado à estória do hospício e, invariavelmente, a estória pode resvalar na descrição ou menção a algum transtorno psiquiátrico.
Além de escritora do gênero Fantasia, também sou psicóloga e, por isso, este artigo tem como objetivo fornecer um breve guia para quem é leigo no assunto e não quer cometer nenhum erro na hora de escrever seu conto. Afinal, o tema de “distúrbios mentais” é delicado e requer um certo cuidado ao ser abordado.

Patient, Surrey County Lunatic Asylum, 1850

Patient, Surrey County Lunatic Asylum, 1850

1ª Dica: Pesquise (em fontes confiáveis)

Antes de decidir que seu personagem será esquizofrênico, histérico ou psicótico, pesquise o que estes transtornos realmente são. Muitos deles foram retratados de forma equivocada em outras mídias de entretenimento, portanto, não se baseie em um filme ou um livro de ficção de alguém. Também tome cuidado com as pesquisas de internet, pois nem sempre o site possui as informações corretas. Por isso, vá direto à fonte e pesquise no CID-10, o compêndio oficial sobre transtornos psiquiátricos. Embora ele tenha termos técnicos nas descrições, é possível compreender o quadro geral dos distúrbios mentais e seus principais sintomas.

2ª Dica: Foco nos sintomas (ações)

Os transtornos psiquiátricos podem se originar de uma grande variedade de fatores: traumas de infância, medicamentos, acidentes, oscilações hormonais, problemas neurológicos, e por aí vai. O(a) escritor(a) deve tomar cuidado para não cometer o erro de achar-se no direito de explicar como uma doença surge sem o conhecimento técnico e científico para tal. Por isso, o melhor a fazer é fugir desta armadilha e focar apenas nos sintomas do distúrbio – algo mais superficial, porém, mais seguro. Todos os distúrbios geram ações no indivíduo (por exemplo: comportamento agressivo, isolamento, comer compulsivamente, dormir pouco ou muito, etc.) e este é um terreno mais confortável para o(a) escritor(a) abranger em seu personagem.

3ª Dica: Cuidado com os estereótipos

A própria noção de classificação em um distúrbio mental específico já encerra o indivíduo em uma categoria pré-determinada de humor, personalidade, histórico de vida e necessidades. Daí à estereotipar o personagem é um pulo. Nem todo esquizofrênico fala sozinho ou ouve vozes. Nem todo psicótico é um serial killer. Nem todo depressivo sofreu um trauma na infância. Como escritor(a), tente retratar seu personagem de uma forma diferente e criativa, trazendo para o leitor do seu conto algo interessante e novo. (O que reforça a necessidade da 1ª dica: pesquise, pesquise, pesquise).

4ª Dica: Sensibilidade e empatia

Ser um(a) portador(a) de distúrbio mental é um fardo pesado de carregar. A sociedade e a própria Medicina e Psiquiatria impõem uma série de pré-conceitos e paradigmas a estas pessoas. Portanto, não custa nada o(a) escritor(a) agir com sensibilidade, empatia (e até mesmo carinho) com seu personagem. O conto pode ser lido por alguém que se identifique com as condições daquele personagem.

5ª Dica: Menos é mais

Procure simplificar. Caso queira escrever os por quês daquele personagem ter um determinado transtorno psiquiátrico, não vá muito além do que sua capacidade de compreensão como leigo chega. O conto tem diversas camadas a serem exploradas e não vale a pena enveredar por caminhos científicos demais. Além disso, procure saber como os hospícios do início do século XX tratavam seus pacientes para mencionar tratamentos e técnicos que realmente existiram.

Com estas dicas simples e diretas, espero ter iluminado os caminhos de quem também quer fazer parte desta antologia incrível.
A Editora Wish também escreveu um artigo com dicas para escrever contos. Leia ele aqui.

Rúbia Dias é psicóloga e escritora e mora em São Paulo. É autora do livro de fantasia “Os Três Encontros”, publicado de forma independente através de seu site, onde também fala sobre Literatura. Acesse:
Facebook: fb.com/perplexidadesilencio
Site: perplexidadesilencio.blogspot.com

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